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Cyro dos Anjos profetiza a Bossa Nova

Li apenas dois livros de Cyro dos Anjos, mas isso bastou para que o considerasse meu escritor brasileiro preferido (até porque li mais da metade da sua obra ficcional, restando apenas o romance derradeiro Montanha).

Sua narrativa é introspectiva, com tons de crônica, polvilhada com dados comentados sobre vários episódios e figuras da cultura ocidental, tudo isso costurado por uma escrita refinada e também clara.

Amanuense Belmiro é sua obra prima, mas Abdias tem inúmeros méritos. E um dos que mais me impressionaram (apesar de ser bem sutil, a princípio) foi o fato de Cyro, através de seu alter-ego Abdias, fazer uma verdadeira profecia sobre o surgimento da bossa nova, movimento musical que acabou por batizar e se compor como um gênero à parte.

Vinicius-Jobin-Joao

Vinicius, Tom e João Gilberto, década de 50

O romance data de 1945, enquanto que o tiro de largada para a bossa nova foi um compacto com duas músicas de João Gilberto, lançado quase quinze anos depois, em agosto de 1958.

O que Cyro faz, dentro do romance, é uma breve análise do samba, onde ele elenca pontos que o desagradam no estilo, enquanto vislumbra possibilidades que cabem como uma luva no intinerário bossanovista.

Na cena criada por Cyro, Abdias aparece com um ponto de vista bem conservador sobre o samba.

Talvez ele se referisse, sem muito conhecimento do tema, aos sambas-canção carnavalescos, com uma repetição incessante de trechos específicos, harmonias previsíveis e letras com apelo popular.

Talvez não conhecesse os sambas de Noel Rosa e Ary Barroso, Adoniran Barbosa, e outros que já estavam em atividade na época do romance (Noel, inclusive, já havia falecido há alguns anos).

Talvez Cyro dos Anjos estivesse apenas compondo seu personagem, um amante da música clássica e da cultura erudita (interesses também de Cyro, pelo que se sabe).
 
De início, iria citar apenas o trecho específico sobre o samba. Mas decidi reproduzir aqui a página quase integral, que de certa forma rodeia o tema, e que demonstra bem a escrita fluida, saborosa e elegante do autor:

    “Estávamos numa segunda-feira de carnaval, e uma camioneta com alto-falante rodava pela rua, derramando no ar sambas fanhosos, entre anúncios de pastas dentifrícias.
     
    Chamei a atenção do Dr. Azevedo para a invasão crescente do samba e condenei o apoio que lhe davam alguns intelectuais. Prestigiando aquela manifestação primária da criação musical e conferindo-lhe foros de cidade, influíam para que o povo cada vez mais se distanciasse da boa música.
     
    – O rádio é talvez o maior responsável por isso, concordou.
     
    E contou-me, a propósito, que, para se ver livre de uma família de fanáticos radio-ouvintes, que faziam o aparelho funcionar o dia inteiro, teve de comprar a casa vizinha.
     
    – Como vê, eu, velho democrata, tive de procurar solução no espírito latifundiário e imperialista da Glória. Mas não havia remédio. Quase me punham doido. E quando ouviam irradiações de partidas de futebol? Estas são de enlouquecer!…
     
    O assunto excitara-o. Continuou, animado:
     
    – Agora, não me apanham mais. Do contrato de locação faço sempre constar uma cláusula segundo a qual o locatário não pode utilizar-se do rádio senão umas duas horas por dia. E são sempre as horas em que não estou em casa.
     
    Voltando à questão do samba, disse, depois, que talvez estivéssemos exagerando o mal que decorria de sua incrementação, através da atividade radiofônica. Quem sabe essa música elementar não seria preparatória de formas musicais superiores, no futuro? À semelhança do que já faziam alguns compositores brasileiros da atualidade, outros talvez viessem, mais tarde, extrair da ganga pobre do samba temas para concepções mais ricas…

De fato, João, Tom e Vinicius o fariam. Mas a bola já tinha sido cantada antes, obscuramente, no rodapé desse belo romance do mineiro de Montes Claros.

Historinha real

Outro dia, estava eu a andar de bicicleta, quando leio a placa numa casinha simples: “vende-se chup-chup. 50 centavos com suco, 80 centavos com leite”.

Bateu uma nostalgia danada da infância e pré-adolescência, quando eu e meus amigos comprávamos chup-chup nas casas da vizinhança, as vezes chamando até mesmo de madrugada, fizesse frio ou calor. Tinha de morango, chocolate, coco, meu preferido era um rosa de creme holandês, cujos ingredientes ainda hoje me são desconhecidos, mas o sabor permanece memorável.

Parei como um menino em frente a casa. Enquanto contava as moedas animado, me peguei pensando “mas, peraí, com que água eles fazem o chup-chup? É feito com suco de pózinho, esses vagabundinhos de marca genérica? Polpa de fruta é que não é! E chup-chup de leite? Mas eu não tenho tomado leite! E se eu passar mal?”

“Ah, Rafael, você está ficando velho”, constatei enquanto voltava a pedalar.

A Arte como Caminho Espiritual – um breve ensaio

Sou um grande admirador do filósofo britânico Paul Brunton. Certa vez, li um aforisma dele que nunca mais esqueci, e transcrevo aqui de memória (acrescentando apontamentos meus).
 
Dizia ele que a religião é dispensável para o verdadeiro artista. Não que esse artista não possa ter uma; mas é que a arte pode servir como um caminho espiritual tão válido quanto a religião.
 
Se for um artista empenhado em executar uma obra cada vez mais próxima daquilo que sua alma sopra pra si mesmo (e não um embusteiro em busca de dinheiro fácil), então passos serão dados em direção a uma espécie de redenção.
 
Essa ideia soa meio messiânica, mas dois tipos de pessoas irão compreendê-la: os artistas – ateus ou não -, que algum dia produziram algo que lhes pareceu profundamente sincero; e as pessoas que, em dado momento, sentiram uma identificação de alma com uma obra artística.
 
E esse é o ponto que acho interessante em relação a caminhada espiritual da arte: as obras funcionam como faróis, como vislumbres de algo maior, algo que pode-se chamar de Deus, de paraíso, ou algo inominável. A verdadeira obra de arte pode inspirar todo tipo de pessoa (quem faz e quem aprecia) a se abrir para uma transformação interna.

“Venha, meu amor”: a história da canção celta “Siúil a Rún”

Uma canção chamada Shule Aroon e outra chamada Johnny has Gone for a Soldier. Uma simples audição revela diversas coincidências entre ambas. Na verdade, apesar dos títulos e das melodias levemente diferentes, todas elas derivam da mesma canção, chamada Siúil a Rún, um antigo tema tradicional da Irlanda, de autoria desconhecida.
 
Nos últimos anos, Siúil a Rún estrapolou as fronteiras da Irlanda, e se popularizou ao figurar no repertório de megaespetáculos como o do grupo feminino Celtic Woman, ou o show de dança Riverdance. Mas alguns anos antes, de forma nem muito tímida, as diversas versões e adaptações da canção já haviam sido interpretadas por diversos nomes: desde o grupo Clannad (dos familiares da cantora Enya, conhecidos como os “embaixadores musicais da Irlanda”) até o cantor americano de folk music James Taylor, passando por artistas como Pete Seeger, Mary Black e Bonnie Dobson.
 
 
 
O título original, “Siúil a Rún”, no idioma gaélico, quer dizer “vá, meu amor”. Apesar do refrão cantado em gaélico, as estrofes estão em inglês. A mistura é justificada pelo fato de que ambos são os idiomas oficiais da República da Irlanda (nação que ocupa boa parte da Ilha da Irlanda, dividida entre a República e a Irlanda do Norte). O idioma inglês entrou na ilha quando houve a invasão de mercenários cambro-normandos, enquanto que o “gaélico irlandês” (Gaeilge) descende da história dos povos celtas que formaram o país. O fato de se misturar esses idiomas distintos em um mesmo contexto talvez veicule a canção à uma forma poética conhecida como “macarrônica” (macaronic, algo parecido com o que nós brasileiros nos referimos quando alguém fracassa em falar um idioma estrangeiro, incorporando sem querer elementos da própria língua).
 
A letra é cantada do ponto de vista de uma mulher, que lamenta a ida do seu amado para o exército. Essa camada superficial de significado emerge facilmente em uma audição rápida. Contudo, o exercício de se rastrear as origens da canção pode revelar pistas meio que obscuras. Há quem diga que Siúil a Rún se refira à Revolução Gloriosa, que afetou todo o Reino Unido no século XVII. Mas outras possibilidades apontam para o fato de que a canção teria sido composta no século XIX, emulando um estilo mais antigo. Nada é certo em relação a isso. De todo modo, é possível que ela tenha sobrevivido ao teste do tempo da mesma forma que diversas canções antigas da Irlanda: várias delas eram traduzidas integral ou parcialmente para o inglês, algumas vezes mantendo apenas o refrão no idioma original gaélico-irlandês. Existem até mesmo casos em que as traduções acabaram gerando versos praticamente sem sentido!
 
O mais interessante sobre Siúil a Rún e suas versões é que as diferenças entre elas pode dizer muito sobre seu contexto original. Na versão americana da música (que se tornou muito popular nos Estados Unidos na época da Guerra Revolucionária Americana do séc. XIX), o personagem do jovem segue para a guerra; mas na versão irlandesa, o mesmo jovem segue por um difícil e voluntário exílio. Há quem diga que essas variações seriam fruto da própria história da Irlanda, e se referem à invasão dos ingleses: os irlandeses teriam sido pressionados pelos britânicos a se alistar no exército, caso contrário seriam exilados para sempre.
 
A versão americana se vincula à original ao manter trechos da letra irlandesa, mas além de ter uma melodia diferente, há o acréscimo de uma frase que modifica todo o sentido, a ponto de ter se tornado seu novo título. “Johnny Has Gone for a Soldier” marca a decisão do personagem de enfim seguir para a carreira militar (Johnny foi se tornar um soldado, ou algo do tipo).
 
 
Uma versão intermediária entre Johnny e a suposta original Siúil a Rúnchama-se Shule Aroon – apenas uma grafia diferente do termo gaélico. A melodia é semelhante à Johnny, mas no lugar da frase do título, está “iss go jay too mavoorneen slahn”, extraída do original gaélico (também escrita como “Is go dté tú mo mhuirnín slán”).
 
 
A canção é mencionada em alguns clássicos da literatura. Em O Mestre de Ballantrae, de Robert Louis Stevenson (o mesmo autor de A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro), o protagonista a assobia para impressionar a mulher de seu irmão mais novo, e em seguida faz comentários depreciativos sobre seu significado, debochando dos exilados jacobitas na França que choravam ao ouvir sua letra.
 
Uma aparição ainda mais notável de Siúil a Rún está no célebre romance Ulisses, de James Joyce. No capítulo intitulado Ítaca, Stephen Dedalus está na cozinha de Leopold Bloom, e cantarola a canção para seu amigo, que responde cantando uma canção em hebraico para Dedalus. A letra de Siúil se vincula a um tema que aparece em todo o livro, a respeito da perda da linguagem, da traição, e de mulheres que vendem a si mesmas.
 
Segue a letra original (pelo menos a mais antiga que se tem notícia) e suas variações:
 
Siúil, siúil, siúil a rún
Siúil go socair agus siúil go ciúin
Siúil go doras agus éalaigh liom
Is go dté tú mo mhúirnín slán
 
I wish I was on yonder hill
‘Tis there I’d sit and cry my fill
And every tear would turn a mill
Is go dté tú mo mhuirnín slán
 
I’ll sell my rock, I’ll sell my reel
I’ll sell my only spinning wheel
To buy my love a sword of steel
Is go dté tú mo mhúirnín slán
 
I’ll dye my petticoats, I’ll dye them red
And round the world I’ll beg my bread
Until my parents shall wish me dead
Is go dté tú mo mhúirnín slán
 
I wish, I wish, I wish in vain
I wish I had my heart again
And vainly think I’d not complain
Is go dté tú mo mhúirnín slán
 
But now my love has gone to France
to try his fortune to advance
If he e’er comes back ‘tis but a chance
Is go dté tú mo mhúirnín slán

Uma tradução (em inglês) para o refrão em gaélico seria:

 
Go, go, go my love
Go quietly and peacefully
Go to the door and flee with me
And may you go safely my dear.
 

Uma versão alternativa (ainda irlandesa) da letra inclui esses versos:

 
His hair is black, his eye is blue
His arm is stout, his word is true
I wish my darling I was with you
‘s go dtéigh tú, a mhúirnín, slán
 
I watched them sail on Brandon Hill
It’s there I sat and cried my fill
And every tear would turn a mill
‘s go dtéigh tú a mhúirnín, slán
 
I wish the King would return to reign
And bring my lover home again
I wish, I wish, I wish in vain
‘s go dtéigh tú a mhúirnín, slán
 
E, aqui, alguns versos adicionais da versão em inglês:
 
I sold my flax and I sold my wheel
to buy my love a sword of steel
so it in battle he might wield
Johnny’s gone for a soldier
 
Oh my baby oh my love
gone the rainbow gone the dove
your father was my only love
Johnny’s gone for a soldier

Deus, essa epiderme

Para os crentes, a oração é a construção de uma linha direta com Deus, enquanto que, para os ateus, é um tempo perdido e nada divertido. E no meio dessas perspectivas, existem outras, como os que oram por medo do inferno ou motivados por desejos (as famosas “orações pedintes”), mas não é nessas searas que quero me meter.
 
Esses dias, fiquei pensando no quanto de química existe na oração. Afinal, tudo que fazemos ativa e desativa substâncias corpo afora; desde uma olhada tímida para a lua até o ato de correr na maratona de são silvestre. Essas coisas objetivas que fazemos inevitavelmente despertam químicas, talvez desconhecidas por nós, que percorrem as tantas rotas do nosso pequeno grande organismo.



Acreditamos ter controle sobre essas químicas. Corremos e fazemos amor porque buscamos endorfina. Saltamos de uma ponte amarrados numa corda de rapel querendo adrenalina. Só que nem sempre temos o controle esperado. Você se mata de estudar para aquela provinha cabeluda, e, veja só, acaba ficando tão nervoso que erra tudo! Ou perde a noção do que fazer quando encontra um tigre no meio da rua de casa (digamos que ele tenha fugido do zôo, só para deixar o exemplo menos surreal).
 
De certa forma, orar envolve não um controle, mas talvez um direcionamento dessas químicas, por ser um exercício consciente de amor ao próximo e de louvor. Em um mundo tão objetivo e materialista, o ato de orar pode até ter algo de pitoresco, mas é algo que libera substâncias em nossos corpos como qualquer outra atividade do nosso cotidiano.
 
Nessa perspectiva, pode-se pensar que ter fé e incluir a prática espiritual nas nossas vidas pode ser tão pragmático quanto comer um pacote de biscoito. Tudo bem que é algo que você possa anotar na agenda e fazer, mas, convenhamos, é um bocado difícil abrir mão do cineminha ou da balada para passar alguns minutos ou horas orando pela humanidade. É um pragmatismo pouco usual, que só parece fazer sentido quando se tem fé. 
 
 

Mas, para não fugir do ponto nevrálgico das minhas reflexões, talvez hajam químicas que só a oração libera em nosso corpo… ou não?
 
Bem, não. Muitas pessoas que tomam LSD alegam ter sentido a presença de Deus. Na verdade, já houveram ashrans de monges e líderes espirituais que usavam o LSD para acelerar um processo de autoconhecimento e de prática religiosa. Como leigo, imagino que o ato de tomar ácido lisérgico possa liberar em nós uma enorme quantidade de químicas semelhantes às do momento de uma oração sincera. Só que tanta facilidade em ir de encontro até o Criador pode custar caro, uma vez que o próprio corpo e a mente do sujeito quase nunca estão preparadas para um vislumbre tão magnífico. A prática do ioga, por exemplo, tem como um dos objetivos preparar corpo e mente para o instante derradeiro da iluminação, quando o discípulo torna-se um bodhisattva. O equivalente ao caminho da oração para o catolicismo, que leva o indivíduo à santidade. Por “preparar”, me refiro a um fortalecimento do ego – corpo e mente da pessoa cada vez mais fortalecidas, até o instante em que o próximo passo seja abandonar-se para adentrar ao nirvana ou ao céu.
 

A ciência tem cada vez mais flertado com a espiritualidade, desde a física quântica até a descoberta da dinâmica do Bóson de Higgs. Não me atreverei a escrever sobre essas áreas que pouco conheço, mas acredito que, quando se abre para tais fenômenos, o cientista está cada vez mais próximo do artista ou do monge – só que o paradoxo é que ele não deixa de ser cientista. Só se amplia o escopo e a função.
 
 

Jung (sujeito extremamente empírico, mas que o senso comum cristalizou como um místico) dizia que sua autobiografia “Memórias, Sonhos, Reflexões” frustraria leitores que procurassem fatos, datas, e informações muito objetivas (na psicanálise junguiana, se diria que é um perfil típico de um leitor “extrovertido”). Porque a trajetória dele é para dentro, é interna, introspectiva. Jung buscava entender não só o simbolismo do elemento sagrado e espiritual, mas também sua organicidade (afinal, era psicólogo, e médico de formação).
 
Ao pensar nas químicas corporais que percorrem o corpo (esse pequeno mundo que é parte de nós), percebe-se uma responsabilidade parecida com a do homem no planeta: podemos tanto fazer guerras, quanto fazer cidades, e, se possível, construir templos e igrejas. Dentre outras vocações, nosso corpo pode ser um templo. As forças que a oração libera são tão orgânicas quanto sobrenaturais. É como se a escolha da palavra (“no início era o verbo”…) e da atitude fossem chaves de portões, que, quando abertos, liberam jatos químicos sobre as veias, criando mosaicos de paz e serenidade sobre nossa percepção.

20out2013

Download da HQ Ana Crônica

Em 2009, editei a HQ, Ana Crônica, que lancei pela TGB Gráfica e Editora. Foi meu primeiro trabalho mais elaborado. A primeira (e única) tiragem se esgotou, e agora, comemorando 4 anos de seu lançamento, enfim a disponibilizo na internet.

Ana Crônica é uma personagem deslocada num mundo que considera maluco demais para sua cabeça. Mora numa quitinete em São João Del Rei, está um pouco acima do peso, e adora filmes e músicas antigas. É amiga de muita gente da universidade, detesta seu emprego, e tenta levar a vida com um pouco de autenticidade e alegria.
Dividi as duas histórias que compõem a HQ em arquivos separados. Abaixo o link das duas. E, em seguida, o download do programa Comic Display, que possibilita a leitura das histórias no formato cbr.
Pros que não leram, espero que gostem. Quem já tem o gibi impresso, fica uma outra forma de reler e de guardar.
Rafael Senra

Sobre Afetos e Jardins

Foto: Paloma Parentoni

 1 – Homens e Mulheres (e não “ou”, “versus”, “com”, e eteceteras)

Existem tantas maneiras de se estar no mundo quantas forem as pessoas à habitá-lo. E nossa diferença não vem apenas da cor dos olhos ou das impressões digitais. Não vem de humanas miudezas. Acima das heranças, são nossas escolhas que mais dizem sobre nós. Todo aquele que anda escreve a sua história com pegadas. 
Mas, em se tratando de humanos (essa espécie que adora se fazer de soberana nessa terra), existem alguns pontos universais. A divisão de gênero, entre masculino e feminino, é crucial ao se pensar sobre formas de estar-no-mundo. Muito mais que distinções de corpos, as consequências simbólicas dos gêneros são imensas. Do contrário, ninguém se chocaria com frases como a de Lacan, que décadas atrás afirmou que “a mulher não existe”.
Não quero, aqui, discutir psicanálise ou quaisquer complexos dessa ordem (nem tenho cabedal para tanto), mas vale a pena se deter um pouco sobre essa frase. Muitos acreditam que é uma idéia misógina e preconceituosa em relação à mulher, quando, de fato, penso que ela se refere a mulher como sendo uma espécie de “falha” na matrix simbólica. Creio que, para Lacan, ela (a mulher) escapa do universo simbólico, não é apreendida pelo lastro cultural assim como o homem é. Falarei melhor disso adiante.
Isso se daria por uma dialética básica; mas antes de entrar nesse assunto, é necessário aprofundar o conceito de “falo”. Certamente o falo não se resume ao pênis do homem, mas sim a um símbolo de poder, que em narrativas mitológicas se confunde, por exemplo, com espadas, armas, torres de castelos, enfim, artefatos de poder. A bravura, a iniciativa, a postura de um guerreiro ante os deveres da vida, são todas características tidas como “fálicas”.
Foto: Carla Evanovitch

Agora sim, menciono essa tal dialética, que consiste de duas maneiras diferentes de se estar-no-mundo: de um lado, o homem, que assume seu “falo” como âncora para se fixar no oceano simbólico. Ou seja, ao ser ativo e ousado (fálico), o homem crê que é único, que é assim que marca seu lugar no mundo (não é a toa que animais mijam ao redor de seus territórios para demarcá-los. Já que estamos falando de falo, de onde vem esse xixi?). Esse é um lado da dialética. O outro, é a mulher que, teoricamente impossibilitada de ter um falo para lhe ancorar no oceano simbólico, navega (aparentemente) à deriva.

Na verdade, é como se os códigos simbólicos não capturassem a peculiaridade da mulher, e fossem uma espécie de idioma estrangeiro no universo feminino. Isso porque cada mulher (e tento, da minha forma canhestra, pensar o que eu leio nessa idéia da psicanálise lacaniana) é, em tese, única. Por isso ela é inapreensível simbolicamente. Por isso, toda mulher ganha o dia ao ouvir seu homem dizer que ela é insubstituível. Por isso, as meninas que fantasiam com príncipes encantados, e elas enquanto princesas – a coroação e o reconhecimento de serem únicas. Os homens, por sua vez, tem uma distinção aparente, superficial. Em profundidade, o mesmo não se daria. Por isso a obsessão em ser fálico, em ter um carro possante (e mostrar pra todos que seu som é alto), e até mesmo exibir um corpo enorme todo esculpido em academias. É na superfície do social que o homem se crê único.
A identidade da mulher se distingue da do homem nesse ponto – cada mulher é única naturalmente, enquanto homens o são simbolicamente. Entretanto, se a mulher é única, mas inapreensível simbolicamente, então ela teria uma espécie de “liberdade poética” entre os simbolos. Não há comprometimento com um “eu-lírico”, com uma voz rígida, assim como acontece com os homens, que buscam por uma postura íntegra. A mulher é pura fluidez. Se ela tem tantas peças em seu guarda-roupa, tantos sapatos e maquiagens, é porque ela assume variadas maneiras de se representar socialmente. E a mulher não se perde nessa brincadeira justamente por ser única. Diferente do homem, que marca seu espaço através da rigidez fálica, do rigor de sua representação. Esse homem precisa fazer isso porque, do contrário, se perderia no universo simbólico. Ele precisa ser fiel a seu papel. Os papéis sociais, as representações, constituem sua identidade e sua voz.
Foto: Paloma Parentoni

Fica mais fácil visualizar essas diferenças a partir da oposição “razão X afeto”. O estar-no-mundo masculino geralmente se dá pela via racional, e é a razão que compõe o paradigma ainda em vigor nas sociedades humanas ocidentais (e patriarcais). Esse é o esqueleto que sustenta nossa vida comum, é nossa herança cultural. E é característica da razão ter limites bem definidos – “definir”, aliás, é o que a razão faz. A razão cria cercas, margens, regras. É através da razão que nos tornamos cidadãos “razoáveis”, ponderados, comedidos, cautelosos até. É uma necessidade de controlar a vida.

Não é a toa, penso eu, que “vida” é substantivo feminino. Ela escapa ao simbólico, é inapreensível. Viver é como escrever, e, como bem disse Virgínia Woolf, os escritores não se preocupam com escrever, mas sim com outras coisas[i]. Escrever, assim como viver, não é um fim em si, é atividade que aponta para outro lugar.
Viver imprevisivelmente é viver para além do simbólico, e assumir o imprevisível é ver de outra forma. Etimologicamente, “imprevisível” que quer dizer “não ver antes” (do latim, in: não; prae: antes; vedere: ver); ou seja, não usar da razão para tentar antever as coisas. É abraçar o imprevisível, viver com outra forma de ver: é devir.
Para Deleuze, a maneira masculina de estar-no-mundo é dominadora, é uma forma de expressão que tenta se impor a toda matéria. As mulheres, contudo, escapam da sua própria formalização; apresentam o que ele chama de “componente de fuga”[ii]. Mas surge a dúvida (racional): se esse estar-no-mundo da mulher é indiscernível, em que solo simbólico pisam seus femininos pés?
Foto: Carla Evanovitch

Elas habitariam o que Deleuze chama de “zona de vizinhança”, esse espaço que se situa fora das margens simbólicas, das categorias que a razão adora delimitar. O tal “entre-lugar”, do qual fala Homi Bhabha[iii]. Para mim que sou mineiro, vizinhança tem um “quê” de encontro, de ir até a casa do vizinho tomar um café, prosear a toa, tem algo de esquina, clubes e amizades. É uma zona imprevisível, porque não podemos mapear o outro – apenas acolher ou rejeitar.

Assim, penso que o estar-no-mundo feminino tem algo de afeto, pois é justamente essa dimensão afetuosa que serve como complemento à lógica racional. E o afeto se manifesta na indiscernível área entre dois corpos, entre dois seres que se encontram. Quando estamos com nossos amigos, não somos nem nós, e nem eles são eles, mas todos se tornam o devir que paira sobre os afetos. As máscaras perdem o sentido em todo encontro sincero, por causa do choque de “eus”, que afrouxam suas cercas e portais para se abrir ao outro, que por sua vez estão também afrouxados e sacudidos.
2 – Escorregando a discussão para algumas atualidades
2.1. “Macrontemporaneidades”
Foto: Paloma Parentoni

Essa ótica do afeto, que quebra qualquer tentativa de delimitar racionalmente projetos de identidade, é facilmente detectada nas manifestações contemporâneas, que tomaram o Brasil em junho de 2013. Não quero entrar aqui em alguns méritos já muito discutidos na web (coisas como situar os protestos brasileiros em relação aos de outros países, nem relembrar os anteriores protestos de décadas no país para refutar a máxima “o gigante acordou”, blablabla.).

Muito se falou também sobre a ausência de pautas dos protestos, e seu caráter, por assim dizer, apartidário. Uma frase que me chamou a atenção em meio a tanto “diz-me-diz” (e que agora não consigo rastrear a fonte. Transcrevo-a de memória): “Quem acha que está entendendo os protestos, não entendeu nada“.
Por isso, acredito nessas manifestações como sendo “massas de devir”, imbuídas de um caráter, dentre outras coisas, feminino – e digo isso nesse sentido de escapar ao simbólico. E não só escapar, mas se posicionar contra o arcabouço simbólico vigente. É outra perspectiva que se apresenta. As instituições, as práticas sociais, as políticas públicas, nada disso foi poupado. As depredações eram tão somente a materialização desse desejo de romper com o que aí encontra.
Foto: Carla Evanovitch

Mas mesmo as depredações (que diversas evidências revelam ser infiltrações de grupos alheios) não parecem dizer muito sobre as manifestações. As vejo femininas também nessa dimensão do acolhimento, nessa postura de dizer “pode vir” (e que, brincando com as palavras, soa parecido com “pró-devir”). O encontro com o outro é a cola que une essas pessoas (não apenas jovens, vale lembrar). Não é a toa que Gilberto Gil se referiu a elas como “raves”. Há algo de celebração nisso tudo, de festivo. É bem pagão, dionisíaco, carnavalesco – subversivo não nesse sentido, mas nesse “sem-sentido”. Elas bradam contra os tecnocratas de terno bem passado, com discursos que se valem de palavras complicadas e rodeios retóricos, visando confundir mais do que explicar.

Sinto a movimentação feminina nesse viés. A razão, essa faca de dois gumes – que o sistema tem usado mais para ferir os seres do que para desbravar novas possibilidades – é enfim refutada. Ela tempera os protestos, mas não constitui o prato principal. 
2.2. “Microntemporaneidades”
Saindo da tônica dos protestos, concluo esse ensaio comentando sobre duas iniciativas mais, digamos, localizadas, e que me chamaram bastante a atenção (foram elas, aliás, a mola propulsora para que eu escrevesse tudo isso). São obras que parecem assumir representações mais artísticas que políticas, ao propor novos olhares para o mundo que nos cerca. Na verdade, elas afirmam o que Suely Rolnik chama de “rigor ético, estético e político”[iv], a um só tempo. Nos dois casos, afetos assumem formas outras, metafóricas. E, claro, ambas foram idealizadas e são realizadas por mulheres.
Foto: Paloma Parentoni

Em O Trajeto do Afeto, a artista belo-horizontina Paloma Parentoni propõe o que ela mesma trata como um misto entre ação poética, intervenção urbana e oficina artística. Barquinhos de papel surgem como metáforas do afeto, como que representando ludicamente o próprio devir das relações entre os seres. Na fanpage do projeto no facebook, as fotos e vídeos evidenciam o quão lúdicas são essas intervenções. Não há limites para as práticas: quaisquer pessoas de qualquer idade, gênero, classe (e o que mais for definidor de identidade) podem participar, já que o cerne da oficina é a doação de afeto e suas implicações.

Mais que apenas exercitar afetos, a trajetória dos barquinhos incita a observação: enquanto eles navegam (simbolicamente ou não) em busca de novos rumos, eles ensinam, para além das palavras, o que é afeto e o que isso suscita em nós. Observar a lânguida caminhada das frágeis embarcações são oportunidades privilegiadas de refletirmos e vivenciarmos ternura, amizade, benevolência – em suma, amor.
Foto: Carla Evanovitch

A iniciativa de Carla Evanovitch também se dá por essa via do afeto, mas é mais subjetiva que a de Paloma. Sua proposta, intitulada Teremos um Jardim, trata do singelo cultivar de jardins imaginários (ou imaginados). O universo em que esse jardim existe é, nas palavras de Carla, “mais sensorial e menos descritivo”. Em vez de compensar seu desejo de semear com esses joguinhos de facebook tipo farmville (com todo o respeito aos apreciadores), ela optou por materializar poeticamente o ritual de plantio, do cultivo, da espera e do florescimento. Aqui, algumas das nossas práticas humanas são tratadas na metáfora dos jardins, como se lembranças fossem folhas outonais, e os girassóis fossem botões de puro afeto, dentre outras imagens que se possa imaginar (ou jardinar).

E a matéria poética tem tudo a ver com a atividade do cultivo. Dentro do signo “palavra”, temos já a idéia de lavra – e a própria palavra “signo”, por sua vez, etimologicamente vem do grego “semeión”, que alude de alguma forma (se não no significado, pelo menos na sonoridade) à atividade de semear[v]. Em ambas, o lúdico é uma possibilidade: ao ser perguntado sobre os motivos pelos quais abandonou a literatura, o escritor Raduan Nassar teria dito que sua vida se tornou “fazer, fazer, fazer, no âmbito da fazenda evidentemente, num espaço em constante transformação, o que não deixa de ser uma outra forma de escrever”[vi]. E ainda mais explicitamente sobre o que o fez trocar uma atividade pela outra: “O que há de lúdico numa atividade você transfere para outra com certa facilidade, desde que você seja sujeito do seu trabalho”[vii].
3. Conclusões?
Foto: Paloma Parentoni

Não sei se há, ou se devam haver, as esperadas conclusões. Assim como os barquinhos de Paloma e as imaginadas “árvores de anzóis” de Carla, as trajetórias em si já se significam. Os afetos não existem nas reflexões racionais a respeito do que representam – eles existem na própria doação desinteressada, na amizade e no amor… e o que mais pode-se dizer sobre isso? Os silêncios decerto expressam mais.

Talvez se possa dizer que essa dimensão afetuosa se encontra escassa (para não dizer “inexistente”) nas lógicas institucionais. Talvez por serem isso mesmo, lógicas. Só me resta dizer que é sempre um encantamento ver mulheres agindo de forma feminina nos ambientes institucionais. Num primeiro momento histórico, a inserção das mulheres nesse outrora masculino e patriarcal mercado de trabalho foi, mais que necessária, revigorante. Agora, o próximo passo poderia ser o de construir canais para que essas características do feminino – de afeto, acolhimento, delicadeza e tantas outras virtudes – possam ser expressas de maneira mais ampla. Imaginem políticas públicas e ações governamentais dessa natureza?
Termino esse texto não com uma inconclusão (já as acumulei demais), mas com uma utopia – a de vislumbrar ações políticas, sociais e culturais tão belas quanto um barquinho de papel ou um jardim imaginado. Ah, utopias, suas belas ilógicas…
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Ps: eu acredito em sincronicidades, e recebi da amiga Elisa Gomes via facebook esse vídeo abaixo, no exato momento em que colocava um ponto final nesse texto. Podem acreditar. Aviso aos pessimistas: saibam que não vou me lamentar caso queiram duvidar da coincidência que narro… fé é como opinião, cada um com a(s) sua(s).


[i] WOOLF, Virgínia. Apud: DELEUZE, Giles. A literatura e a vida. In: Crítica e Clínica. São Paulo: Editora 34, 1997. Pág. 16.
[ii] DELEUZE, Giles. A literatura e a vida. In: Crítica e Clínica. São Paulo: Editora 34, 1997. Pág. 11.
[iii]BHABHA, Homi K. O local da Cultura. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2005.
[iv] ROLNIK, Suely. Pensamento, corpo e devir: uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico. In: Cadernos de Subjetividade. Dossiê: Linguagens. No2. São Paulo: PUC-SP, 1993.
[v] SANTAELLA, Lucia. O que é Semiótica. São Paulo: Editora Brasiliense, 1999. pág. 7-8.
[vi] NASSAR, Raduan.”Entrevista”. In: Cadernos de Literatura, No2. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 1996. Pág. 39.
[vii] Op. cit.

Páginas que se recusam a virar

Imagem por Keltruck Ltd (Flickr)


Em primeiro lugar, meu apoio aos tantos protestos pipocando Brasil afora: não concordo com quem alardeia que esse “espírito revolucionário” inflamando as massas não passa de mero modismo. Aqui, cito Benjamin, que diz que “a moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado” (BENJAMIN, 1994, 230). Ou seja, as modas não surgem por acaso, e resgatam dos escombros da história uma série de coisas necessárias para o presente. Se brotam protestos, é porque precisam brotar.
O triste é pensar o quão medievais e atrasadas são nossas causas. A culpa não é do povo, mas do contexto. Tanto as demandas (preços justos de passagens, direito de liberdade de expressão em praça pública, para ficar só nas pautas gritantes da última semana) quanto a truculência do governo e da polícia são todas histórias de filmes que a gente já viu antes. O Brasil já devia ter virado essa página, e partir para reivindicações mais profundas, mas uma bigorna invisível não deixa acontecer – me refiro a esse peso imenso do descompasso entre as necessidades da população e os desmandos surreais do poder estabelecido.
Fico imaginando as pautas de protestos em países como Finlândia ou Noruega, onde (em tese) os problemas sociais mais urgentes e terceiro-mundistas já teriam sido sanados. Uma sugestão de pauta: protestar contra o modelo dos veículos à gasolina utilizados por talvez 10 entre 10 habitantes do planeta.
Parece discussão de lunático? No Brasil, onde questões como saneamento básico e saúde pública são problemas, pode ser. Mas temos que pensar que já são disponíveis para nossa geração a possibilidade de se construírem carros movidos a água ou luz solar. Então porque perpetuar os ancestrais modelos à gasolina, que não só necessitam de recursos naturais não renováveis, mas que também poluem a natureza em ampla escala?
Podemos detectar frestas do sonhado século XXI nos bastidores da ciência, escondidas nos rodapés de grandes pesquisas, em discretas premissas de alguns estudos. Mas os grandes parágrafos da nossa história acabam sendo um “mais do mesmo”: ditaduras, repressão, governo e polícia despreparados, países subdesenvolvidos, e outras mazelas que a gente conhece na palma da mão. Por isso, me pego perguntando: seriam anacrônicas as pautas dos protestos populares, ou na verdade é a estrutura que se arrasta moluscamente no tempo? Como partir para questões mais profundas, se as urgências superficiais resistem teimosas no topo da lista de prioridades?
Sei que discussões como essa parecem devaneios doidos, mas na verdade quero apenas demonstrar o peso “paquidérmico” do problema: até quando teremos que gritar por demandas que, em teoria, são tão obviamente básicas e necessárias?
*
BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994.

Olhando o Clube por Outras Esquinas

Imagem por Diego (Paseo Común! – Flickr)
No final de 2012, me convidaram para falar em uma mesa redonda no Festival Música do Mundo (que acontece em Três Pontas – MG). O tema era a relação entre os Beatles e o Clube da Esquina. E eis que, em determinado momento desse evento, estava eu a falar sobre a música Coração de Estudante (de Milton Nascimento e Wagner Tiso), eleita como tema das Diretas Já e da abertura democrática, e que representou a eleição de Tancredo Neves à presid…
            E aí, um homem me interrompe, da platéia, dizendo algo que não consegui entender. Pedi a ele para repetir.
            – Tancredo foi eleito por um colegiado!
            – Hmm. – respondi, curioso – e o que eu disse?
            – Que ele ganhou por eleições diretas, populares.
            – Certo. Entendi.
            
          Apesar de tímido, sou tomado por uma certa cara de pau as vezes, o que se revela positiva na hora de driblar o constrangimento. Com a face mais lavada do mundo, retornei ao microfone e disse:
            – Bem, pessoal, voltando, agora corrigindo minha fala, Tancredo Neves foi eleito por um colegiado, desculpem o lapso, bla bla bla, e prossegui falando.
            No final da fala de todos, o homem subiu no palco e veio me pedir desculpas pela intervenção brusca. Eu disse a ele que nada tinha que se desculpar, e que, na verdade, ele me impediu de sustentar uma enorme besteira. Coisas assim me fazem pensar nos perigos de se pesquisar sobre temas como os que eu trabalho academicamente. Mexer com o Clube da Esquina envolve muitas armadilhas: é um movimento relativamente recente, cujos principais integrantes estão vivos e ainda na ativa, e que nasceu em um importante e contundente período histórico do Brasil. Período esse que eu não vivi.
            Pois é… quando o antológico album “Clube da Esquina” completava dez anos de lançado, em 1982, eu era apenas um pequeno ser cujo cotidiano se resumia a choro e leite materno. E a história, para os que chegam depois, sempre acarreta em certa injustiça, pois temos que dar conta do imenso presente e do ainda mais vertiginoso passado – tudo ao mesmo tempo. 
Me pego pensando que todos nós, sejamos leitores, pesquisadores ou apreciadores, temos nossos “pecados” culturais; nossas lacunas de um “saber” dito como essencial: Coisas tipo “você nunca leu Joyce? Não acredito que sequer folheou um livro de Oscar Wilde! Não sabe quem foi Coleridge?? Ohhhhhhhh”. Por mais que sejamos (ou acreditemos ser) cultos, carregamos umas tantas lacunas na nossa ficha corrida. E o pior é que nem fazemos idéia de quantas faltas acumulamos nessa carteira. Por exemplo: tenho plena consciência de que incorro no grave pecado de nunca ter lido Dostoievski, mas só fui descobrir que Tancredo foi eleito por um colegiado no pior momento: falando o contrário numa mesa pública!
            Quanto mais jovens somos, mais “pecados” de leitura carregamos implicitamente – em boa parte, pelo simples fato de ainda não termos tido tempo de ler. E se tratamos de algo que ainda reverbera na memória coletiva das gerações anteriores, é ainda pior. Aumenta-se a chance de sermos “capturados” com a fala repleta de atrocidades. O que fazer? Obviamente, deve-se ler, ler e ler. Muito. Apreender conhecimento, ter algumas informações bem memorizadas, certos nomes e datas-chave, etc. Mas sempre vai faltar a vivência.
            Muitos escrevem e dissertam sobre a contracultura e os anos 60 por vivência. Eu trato sobre o tema por leituras históricas. Porém, tento ouvir seus ecos. São espíritos que ainda reverberam em nosso tempo. No túnel da nossa cronologia coletiva, essas vozes ditas lá atrás ainda podem ser ouvidas, ainda rebatem nas paredes do tempo. Meu esforço está em afinar meus ouvidos, e distinguir o sentido impregnado nessas vibrações ainda existentes. 
            E quando essas vozes começam a se desintegrar no ar, tal qual uma fumaça cujas curvas e cinzas começam a se misturar com o céu azul, enganando os olhos? Resta a observação de seus rastros, das pistas que denunciam sua jornada. Vasculhar a lenha que gerou a fumaça, ir atrás dos lábios e da saliva por trás do almejado som. Livros e pessoas, entrevistas, fatos, dados combinados – um esforço sincrônico e diacrônico. 
            Tolo seria eu se tratasse minha pesquisa como um tótem inabalável. Me sinto no dever de ser o primeiro a reconhecer o quão canhestro é meu trabalho; principalmente na desvantagem de ter nascido anos depois do Clube e de suas principais canções. Contudo, há vantagens: o distanciamento dos anos e das gerações, a perspectiva mais ampla da história, o maior número de fontes paralelas de pesquisa para consultar, a possibilidade de enxergar cronologicamente essa obra tão similar ao desenho das montanhas mineiras – cheia de altos e baixos, mas emanando uma beleza que é perene. Tento traduzir tudo isso no plano objetivo, da maneira que posso, com a dor e a delícia desse específico ponto de vista. Quixotescamente prosseguindo!
(16mai2013)