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Retorno e possível fim dos efêmeros diários

Depois de tentativas de fazer uma espécie de “diário pandêmico” entre os dias 12 e 13 de dezembro, escrevo esse texto no dia de natal para constatar o fracasso desse discreto projeto. Percebi que essas tentativas de escrita se relacionam com péssimos estados de humor, daqueles em que os pensamentos mais sombrios seguem te acompanhando ao longo do dia.

Só que, a partir do dia 14, a criança aqui arrumou um quebra-cabeça capaz de lhe manter entretida: encontrei músicas que gravei há mais de dez anos, e comecei um projeto de “restaura-las”. Entre compromissos da universidade (continuei dando aulas e corrigindo trabalhos até ontem) e outras demandas da rotina, essa se tornou a minha tábua de salvação.

Mas hoje, apesar da data em si evocar sentimentos elevados, sinto-me mal o suficiente para vir até aqui e produzir mais um texto. É engraçado que o tipo de escrita que persigo seja de uma modalidade talvez estimulante para quem lê, decerto pela busca que eu mesmo empreendo de tentar me sentir melhor. No caso de não ver uma luz no fim do túnel, tento eu mesmo acender as minhas velas.

Nesses textos, tenho falado de arte, certamente por ser esse um tema que circunda meu espírito de um modo muito intenso. Mas sei que, por mais que falar disso seja algo caro à mim, tenho consciência de que estou fugindo de mencionar as questões mais pungentes por trás dos tais pensamentos sombrios. Não é falta de sinceridade aqui, mas apenas uma fuga de trazer assuntos perturbadores.

Isso tem uma razão que vai além da modéstia, ou da timidez, da covardia e de outras justificativas: é a consciência dos privilégios. Saber que estamos em uma época terrível para tantas pessoas. E não é apenas por culpa da pandemia, e sim por nós, brasileiros, termos cometido um equívoco gravíssimo em 2018, e nem preciso entrar em detalhes para que saibamos do que falo.

Se tantas pessoas estão desempregadas, passando fome, ou amargando sequelas de Covid, ou outros problemas que nem saberia citar, preciso colocar isso em perspectiva, e reconhecer que minhas angústias pessoais parecem pequenas. Talvez escrever isso em segredo, nesse blog lido por sabe quem, seja um modo de lidar com isso. De materializar um possível fio de sentido das coisas, ordenar os sentimentos por ordem alfabética, enfim, trazer qualquer tipo de racionalidade para esse turbilhão, e fazer isso longe de holofotes, na penumbra, no meu canto, sem incomodar outras pessoas.

É curioso que, mesmo escrevendo para não ser lido, ainda reluto em trazer esses problemas com clareza. Talvez seja a culpa católica tão presente nos mineiros. Mas soa-me como ingratidão, como uma incapacidade de perceber o motivo pelo qual estou vivendo tudo aquilo. Schopenhauer dizia que, ao chegar no fim da vida, uma pessoa é capaz de olhar para trás e entender o motivo pelo qual cada evento se deu ao longo de sua trajetória. Acho que a premissa é verdadeira, mas nem é preciso levarmos o fim da vida como exemplo. Se lembramos de algo acontecido há certo tempo, se temos força interior e boa vontade para refletir sobre esse acontecido sem se entregar aos traumas, podemos entender porque estava ali, naquele lugar, naquele tempo, esperando para que tropeçássemos. A chave para termos esse entendimento é o distanciamento. Pensar naquilo como se fossemos personagens de outrem. Sair de si. Provocar intencionalmente um estado de consciência que podemos atingir através da meditação, por exemplo.

Até mesmo agora, eu consigo entender porque estou vivendo tantas coisas que me afligem. Ao mesmo tempo, essas coisas cutucam em feridas. Só hoje, tomei consciência de dois ou três traumas de infância que me tiraram do sério recentemente. Como educador, fico pensando na seriedade de lidarmos sobretudo com jovens, e na delicadeza que o trato com eles exige. Uma palavra desajeitada na hora errada pode custar caro para outra pessoa. No meu caso, tem toda a questão de ter crescido no interior de Minas, uma região de mineradoras, com pessoas que possuem uma mentalidade extrativista e conservadora, com carga imensa de machismo e, em muitos casos, uma escassez de senso estético e de capacidade de abstração.

Só que mesmo essas dores me parecem justificáveis quando considero o senso de empatia que talvez seja fruto de tudo isso. Mas esse olhar é de agora. Já passei por várias fases: primeiro, um embate com essa mentalidade provinciana; depois, uma adequação e até mesmo reprodução disso; em seguida uma depressão profunda; e, ao longo dos anos, um embate saudável que foi moldando minha visão de mundo em um plano positivo, propositivo, e fértil no sentido nietzschiano – de ser capaz de me imbuir de vida, de potência de vida.

Ainda tenho algumas horas de natal, uma ceia (ainda que mais reservada, pois estou há dois anos sem viajar para Minas, e essa é uma das minhas angústias das quais prometi não falar), e espero trazer alguma luz para esse estado de espírito. Fico por aqui sem nenhuma frase de efeito ou qualquer esmero para esse texto. Seco, porém otimista.

Arte, uma questão de fé

Não importa qual a sua experiência com uma forma de arte, quantos anos lide com isso, se tem formação avançada naquela modalidade de expressão, e muito menos a quantidade de prêmios alcançados… se, num determinado dia, você se arrisca naquela mesma arte e nada de significativo acontece, o efeito disso pode ser devastador para seu ânimo.

O escritor J.R.R.Tolkien tem um livro chamado Ferreiro de Bosque Grande, que narra a história de um personagem que tinha acesso do mundo da Terra-Fada, mas, ao envelhecer, as regras mudam: é preciso fazer um novo banquete que irá conceder o direito de acesso à esse mundo mágico por pessoas mais jovens. Este foi o último livro escrito por Tolkien, e pode ser interpretado como uma metáfora do ofício criativo.

O personagem do Ferreiro seria como que um artista, alguém que, na juventude, recebeu o dom de acessar um mundo mágico e exótico. No fundo, é isso que cada artista faz ao exercer seu ofício: com seus dedos e sua mente, criam novos mundos, e conseguem acessar uma espécie de realidade paralela. Abrem fendas no real.

Só que, seja pela idade ou por outro acontecimento, esse acesso subitamente pode não se tornar possível como era antes. É como se o artista, mesmo ainda capaz de repetir o ritual de acesso ao mundo paralelo, não conseguisse mais abrir o portal. No caso de músicos ou atores, ainda há a possibilidade de tocar obras compostas anteriormente, pois tratam-se de obras performáticas. Mas a metáfora do Ferreiro de Bosque Grande refere-se ao específico ato de composição e criação em especial.

Esses dias, estou retomando algumas das minhas atividades artísticas, depois de dias sem conseguir praticar. Dias não, semanas. Em alguns casos (como o do desenho), seriam meses. E o que acontece é o seguinte: o desenho até sai, o texto sai, a música também sai. Mas você não se sente arrebatado. O portal parece não se abrir. Você duvida daquele dom que você tinha certeza que existia passando por suas veias. Onde está a eletricidade? Porque os pêlos do meu braço não se arrepiam como antigamente?

A pandemia também foi um balde de água fria para boa parte dos artistas, e isso não passou incólume para mim. O que é engraçado, porque, no início, a pandemia me gerou muito tempo livre, mas eu passava boa parte desse tempo angustiado com tudo que estava acontecendo, preocupado com o bem estar de pessoas que amo. Com o tempo, a sensação de normalidade foi sendo gradativamente retomada, mas não de todo. E, por diversas circunstâncias, apesar de ainda trabalhar remotamente, foi-me designada uma quantidade enorme de trabalho. Passei meses lidando com atividades repetitivas e burocráticas.

Daí você tem algumas brechas de tempo livre, mas a criação não flui como antes. Assistir um filme ou ler um livro não causa a adrenalina de outros tempos. É como se a capacidade de sentir estivesse meio embotada. Uma espécie de atrofia dos sentidos ou do espírito.

E não é algo que adianta forçar. A fluidez dessa energia não depende totalmente da pessoa. Na verdade, até que há algo que podemos fazer: continuar praticando. Mas não ocorrem garantias. O ofício da criação é um tiro no escuro. Não é algo utilitário. É como ter filhos: você não escolhe como eles serão. Alguns detalhes podem ser direcionados, mas são poucos.

Existem artistas que forçam um ato de moldar suas criações, tentam executa-las de acordo com parâmetros bem definidos. Mas isso resulta em golens sem alma. Veja a música comercial atual: é feita por algoritmos, fórmulas, sequências de acordes já convencionalizadas, temas manjados, etc. Isso até pode resultar em vendas e em sucesso de público, mas não vai sobreviver ao teste do tempo. Não existe hype ou marketing que faça com que gerações seguintes continuem consumindo uma obra ou um artista específico. Só sobrevive ao tempo quem tem algo legítimo a oferecer.

Eu já tentei forçar músicas a soarem exatamente como eu queria. Nesse momento, ouvi uma voz em minha consciência, dizendo mais ou menos o seguinte: “Rafael, você chegou a uma bifurcação. É hora de decidir qual caminho vai seguir. Essa estrada aqui é exatamente como você queria que fosse, tem todas as curvas e retas que você concebeu, e a quantidade e o tipo das árvores e pedras no entorno são exatamente como o seu planejado. Só que, no fim, há um despenhadeiro e você terá que pular nele – porque, você sabe, se algo está feito, está feito, e não é mais possível voltar atrás”.

“Porém, você tem esse outro caminho. Eu sequer posso lhe antecipar o que virá. Podem ser curvas, ou uma reta enorme, podem ter morros, animais peçonhentos, você pode até correr risco de vida, ou encontrar um tesouro depois do arco-íris. Pode ser tudo isso, ou nada disso, ou outra coisa completamente diferente. Quem sabe? Ninguém. Mas você pode saber. Basta escolher”.

A criação é um exercício de fé. Por isso pensadores como Paul Brunton dizem que, se você é um artista de verdade, não precisa ter uma religião se não quiser. Aquela matéria prima inominável com a qual você brinca em segredo é uma forma de entrar em contato com a mesma força que chamamos de Deus em outras tradições.

Nesse caso, basta definir o que se entende por “artista de verdade”. Penso que sejam aqueles artistas que não tem compromissos externos. Não estão dispostos a abrir concessões. E que querem conhecer melhor a si mesmos através da ferramenta da criação. Não sei se essas definições esgotam o tópico da discussão, mas me parecem apontar na direção correta.

Ainda que eu tenha uma religião e tenha fé em um Deus e em uma providência divina, a arte tem sido minha âncora nesse mundo. É o que traz sentido para tudo. Quando consigo acessar essa Terra-Fada, o mundo parece bom. Nem mesmo as notícias ruins na TV conseguem nublar essa sensação de completude. É engraçado: você não tem as respostas do universo, você continua submisso ao mistério que paira sob as cabeças de todos os seres vivos desse planeta. Porém, a plenitude torna-se palpável como o sabor de uma fruta.

É como se, ao criar e se ver satisfeito com sua criação, você criasse também um duto que te conecta direto com aquela realidade sublime da sua fé. O céu? O Nirvana? Não adianta buscar respostas assim tão objetivas. É algo para se sentir, apenas. É uma experiência, e ela é particular. Uma vez que a tenha sentido, passará toda a sua vida procurando por aquilo de novo. Não existe chocolate ou uísque envelhecido que lhe proporcione a mesma coisa.

E aqui estou eu, tentando novamente chegar nesse estágio, mas sem saber se terei tempo livre ou mesmo disciplina para continuar arando essa terra e tornando-a fértil para que algo possa florescer. O vazio de perspectivas não é tão vazio assim – ele é algo, é um sentimento real. E eu o sinto agora.

Mas não pretendo me esquivar. Se eu quiser chegar em algum vale elevado, eu precisarei caminhar pelos grotões e ravinas – esse é o preço a se pagar. É como a vida é. Porque reclamar das partes menos glamorosas do percurso? Conte algumas piadas para si mesmo enquanto a neblina é densa. Cante uma canção bonita. Ou não faça nada: apenas observe como a névoa é branca e espessa. Será que consigo amar o meu vazio?

Nessa pandemia, tive uma percepção muito interessante. Logo que a vida social ficou reduzida à quatro paredes, comecei a ter vislumbres da minha antiga vida – me refiro à adolescência e aos vinte e poucos anos. E havia um desejo de estar lá novamente, ou de viver algo parecido. Mas o curioso nisso tudo é que, naquela época, eu me sentia infeliz – e, as vezes, mais do que infeliz: miserável. Algumas épocas foram de sofrimento muito profundo. Crises de pânico, auto estima em frangalhos e poucas razões aparentes para seguir em frente.

Olhando em retrospecto, porém, tudo aquilo parece simpático e até mesmo amável. Consigo sentir carinho pelo “eu” daqueles tempos. Se pudesse, gostaria de abraça-lo e dizer que tudo vai dar certo no futuro. Não que vá dar certo o tempo todo, mas isso não importa. Mesmo que não “dê certo” no sentido que o capitalismo ou os coachs defendem, mesmo que não seja uma medalha ou um zero a mais em sua conta bancária: poxa, estamos falando da sua vida. É o solo onde você pisou, são os seus familiares e os seus amigos. Você fez o que pôde, você riu das piadas certas, mesmo quando eram as erradas. Criou algumas músicas bobas no colégio, para caçoar de um colega, decorou fórmulas matemáticas que nunca usou na vida prática, assistiu programas de TV em dias de chuva, varou madrugadas tocando violão e bebendo sangria de boi. Alguns eventos foram traumáticos. As cicatrizes podem ter demorado para sarar. Mas, na sala de espera do hospital, alguém te fez sorrir, e aquela criança no colo da mãe parecia dormir um sono tão gostoso. Imagine só se você pudesse deixar seus problemas de lado por um ou dois minutos. O sono daquela criança poderia ser o seu. Ou não: mas mesmo que você sequer bocejasse, aquela inocência de olhos fechados ainda poderia te fazer sorrir.

A consciência do tempo te impede de ser tão impetuoso quanto você era naqueles anos de juventude. Os jovens fazem coisas tão estupidamente ousadas porque acham que nada de errado vai acontecer. No futuro, os cabelos brancos te fazem despertar desse sonho de se achar inquebrantável. Você descobre que os prazos de validade não existem apenas nos produtos vendidos no supermercado. E, como tudo na vida, isso pode ser uma bênção e uma maldição. Por um lado, você perde certa dose de inocência. Por outro lado, você descobre novas maneiras de amar e de ser compassivo. Cresce dentro de você uma percepção do valor de estar vivo e de poder ser alguém no mundo. Mesmo que você seja uma pessoa marginalizada, que sofre, que não possui nada para se orgulhar, mesmo assim é possível considerar que as circunstâncias todas ao redor da sua vida te darão uma perspectiva única. Esse modo de ver as coisas é só seu. É seu mundo mágico. É a chave para sua Terra-Fada.

O paraíso da criação não é feito apenas de lembranças harmônicas. É preciso muita dor, pus e angústia na mistura. Um céu com anjos e demônios. Fazer arte é como olhar para a vida sem estar necessariamente nela – ou talvez ficar provisoriamente suspenso. Ganhar asas temporárias. Planar sob as preocupações. Meditar. E, no fim de seu transe, você tem uma obra de arte em mãos. Ela te lembra de que você pisou em solo sagrado por alguns minutos. Você a compartilha com o mundo, e as pessoas te agradecem por isso. Mas a melhor parte já aconteceu, e você estava sozinho – mesmo que você pudesse sentir elos de afeto real com cada ser desse planeta.

É tão louco quanto eu digo. Mas, hah, vai você tentar explicar isso pros outros. Melhor postar em um blog ou jogar garrafas no oceano.

Depois de cinco anos, a retomada do blog.

É muito engraçado pensar que, na história da internet, blogs são considerados coisas do passado. Até mesmo sites tem caído em desuso. Muitas marcas e lojas virtuais têm usado redes sociais como o Instagram para compartilhar conteúdo. Enfim, é o tempo em que vivemos. Se a velocidade de desuso ainda fosse a mesma da minha adolescência, eu incluiria entre os dispositivos obsoletos coisas como, sei lá, um mp3 player… e não um blog. Mas tudo bem.

Talvez esse tipo de status de obsolescência tenha me motivado a ter justamente reativado esse blog para escrever. Sinto que publicar aqui traz uma aura mais reservada para os textos, longe da babel das redes sociais.

Mas a questão primordial para retomar tudo isso foi assumir uma constatação infeliz: todas as minhas atividades de escrita atualmente são práticas e ligadas ao trabalho. Relatórios, artigos científicos, pareceres, e outras coisas igualmente burocráticas. Em outros tempos, escrever foi algo muito precioso para mim. Na verdade (e já saindo da introdução e entrando numa fase mais aprofundada desse post), sempre me considerei mais um escritor do que qualquer coisa. É como se, ao desenhar ou tocar música, eu fizesse isso com a mente de um escritor. Faz sentido tudo isso? Talvez seja só papo furado que uso comigo mesmo para tentar valorizar o que faço. Eu poderia comparar minhas atividades com uma ilha de montagem e edição, e daria no mesmo.

De todo modo, quero aquecer as turbinas sintáticas e semânticas novamente. Talvez ninguém leia, o que não me importa tanto assim. Por isso estou escrevendo em primeira pessoa e usando muito “eu, eu eu eu”, etc. Soa pretensioso, e afasta os leitores. Mas tudo bem para mim.

Não sei qual tom adotar nesse retorno à escrita de blog. Não sei até que ponto devo ou não ser confessional (pressupondo que alguém estará lendo tudo isso). É tudo um experimento maluco que não sei onde me levará. Nem sei se terei persistência aqui. Talvez seja como essas idas à academia, em que passamos semanas fazendo planos de como será a futura vida fitness, e, passados alguns dias, nunca mais seguramos aqueles halteres de novo.

A única certeza é que tem muitas coisas passando por minha mente. E muitas emoções também. As vezes sinto que poderia passar o dia todo escrevendo. Claro que isso seria um caminho fácil para uma LER seguida de fibromialgia e outras moléstias parecidas. Mas minimamente quero materializar alguns desses pensamentos aqui.

Não me sinto depressivo. As vezes posso estar angustiado, outras ansioso, mas isso é justificável, afinal a pandemia ainda está aí, e tem dois anos que não viajo para minha terra natal. Tem pessoas passando fome, o país está um caos, e as vezes me sinto culpado por me sentir miserável, pois tenho um teto e tenho comida na geladeira.

Mas chega de resmungar. Se for peneirar, o isolamento até que me trouxe coisas boas. Um carinho maior com as pessoas que gosto, a retomada de alguns projetos pessoais que subestimei no passado, e a superação de algumas inquietações emocionais que não me assombram como antigamente.

Também teve a redescoberta de fazer arte apenas pelo prazer da criação, sem pensar no “depois” (como lançar? como publicar?), ou, principalmente, pensar na posteridade da obra. Quando mais jovem, gastei muita energia interior cogitando maneiras de me imortalizar através da arte.

Demorei para perceber que toda a lógica do sistema nos impele a essa necessidade bizarra de reconhecimento. Chegamos ao ponto de ter mecanismos para que pessoas se tornem conhecidas sem fazer nada na vida. Os reality shows revelam “artistas” que não tem obra. É uma sociedade que venera personalidades, em vez das suas realizações.

Algumas décadas atrás, essa matrix da indústria cultural tinha vários furos por onde artistas de verdade poderiam penetrar e prosperar. O produtor Ronaldo Bastos disse que, nos anos 1960 e 70, os sonhadores estavam no poder. Mas essas lacunas foram sendo tapadas gradativamente. Agora, a mamata acabou, e os artistas vivem na mesma penúria que marcou quase todos os artistas de outros tempos. O sucesso massivo feito por arte verdadeira é, historicamente, quase que uma anomalia, se formos pensar bem.

Hoje, quase todo mundo é artista, e, de todos esses (dos mais sofisticados aos mais amadores), praticamente todos são “independentes”. Mesmo os que estão em editoras ou gravadoras. Dizem que a culpa é da concorrência que aumentou muito, mas não acredito nisso. Sempre teve muita gente tentando a sorte na indústria da arte como um todo.

Lendo sobre história das artes (literatura, cinema, HQs, tudo o mais), fica claro que o diferencial tem mais a ver com golpes de sorte que com esforço pessoal. Não tem dessa de “meritocracia” nas artes. A não ser que você seja alguém enormemente talentoso, como um Stanley Jordan, sei lá, e surja com uma técnica absurda e inovadora em uma certa área. Tem umas pessoas que não dá para ignorar nem que se queira. O problema é que a maioria dos reles mortais que se envolvem com arte só vão se destacar com esforço, e precisarão de tempo e de oportunidades. Terão os de maior ou menor talento, mas todos estarão na mesma labuta.

O guitarrista Robert Fripp diz algo que me agrada: ele não acredita em gênio como alguém que nasce genial. Ele diz que a genialidade “pousa” sobre uma pessoa. É como se calhasse de alguém estar no lugar certo e na hora certa, e também de ser a pessoa certa. Foi assim com o próprio Fripp: calhou de ele ter vinte e poucos anos na Londres do fim dos anos 60, calhou de ser amigo de infância de um frontman talentosíssimo (Greg Lake), de conhecer outros músicos acima da média (Ian McDonald, Michael Giles), e calhou até de conseguirem comprar um dos primeiros teclados “mellotron” da história. Todas essas circunstâncias reunidas estão por trás do primeiro disco do King Crimson, “In The Court of Crimson King”. Um dos melhores discos da história do rock. Mas aí está: não foi só talento, não foi só mérito, não foi só por causa do mellotron ou nem por causa das letras de Pete Sienfeld. Foi o xadrez dos deuses mexendo as peças todas.

Por isso, parei de me preocupar com a circulação da obra de arte. E por isso não me preocupo com os leitores desse blog. Vejo dia após dia, nas redes sociais, diversos artistas entrando no inbox de desconhecidos para vender seus livros, divulgar seus discos, até gente que já ganhou prêmios importantes nas suas respectivas áreas aparecem sendo os mascates de si mesmo, ao modo dos vendedores antigos de Barsa, batendo na porta do seu facebook para divulgar seus poemas. Eu costumo conferir o que recomendam, e vez ou outra me deparo com muita coisa boa. Mas a qualidade do material não é o ponto que quero abordar aqui.

Os artistas na era da internet foram largados à própria sorte. Não temos mais a teia da crítica, dos periódicos ou suplementos, que mapeavam o que valia a pena e entregavam isso para o público. Agora, para quem está na cena independente, a indústria cultural virou um faroeste. É você, suas armas e seu cavalo, tentando sobreviver no meio de um deserto. Qual a chance de encontrar um baú de ouro? Tem coragem de matar alguém ou de roubar um trem para enriquecer? Quanto da sua integridade precisará sacrificar junto com seu alazão e seu coldre para fazer um pé de meia?

No fundo, os artistas são todos uns egoístas. Criam para si mesmos. Só que, no afã de serem aceitos, vão cedendo mais e mais. Nesse sentido, tenho imposto meus próprios limites para ceder. Não são limites rígidos demais: afinal, não tenho planos de ser nenhum Frank Zappa. Entretanto, me permito ser bem simples se for o caso, não tenho medo do básico. E tento não me levar muito a sério. Se pinta uma canção de três acordes e com um refrão chiclete, eu posso acolhê-la, porque não? Eu cresci ouvindo grunge, e o Nirvana mostrou que você pode tirar todos os excessos e gorduras sem grilo. Desde que o esqueleto seja íntegro, sua música irá parar em pé.

O êxito do Nirvana também marcou o fim da era dos dinossauros na música. A partir dali, artistas de quase todos os segmentos perderam aquela possibilidade de serem catapultados para outra esfera. Agora, existem inúmeros canais internet afora ofertando cursos e tutoriais para divulgar seu próprio material, por sua própria conta. O que não te dizem (ou dizem sem muita ênfase) é que seu dia continuará tendo 24 horas. Ou seja, vais fazer arte ou vai vende-la?

Esse tem sido um cerne do que faço atualmente. Mergulhar no processo, e não me preocupar mais com o produto. É uma recusa de jogar o jogo, não pelo jogo em si, mas por não ver pontes maciças o suficiente no meio do oceano contemporâneo. Não quero pagar para fazer minha arte circular – seja pagar com grana de verdade ou pagar com meu tempo.

Mas acho que já escrevi muito por hoje, e provavelmente vou me repetir nos próximos parágrafos, então é preciso começar a acabar essa reestreiazinha do blog.

Enfim, posts diários, sobre assuntos dos mais diversos. Não seria mais fácil pagar por uma terapia? Terei tempo hábil para esse projeto de escrita contínua? Ou esse post será a marca de uma futura vergonha por mais um projeto pessoal incompleto? A ampulheta vai rir de mim novamente? Tudo que sei é que, para se ter algo no papel, seja um texto, uma partitura ou um desenho, é preciso que sua pena esteja disposta aos riscos. É isso, por ora.

Conclusões ou finais felizes? Claro que não: só provocações. Eu não disse antes que estou mais pelo processo do que pelo produto?

Resenha do disco Ventos do Sul, de Ismael Tiso

A meu ver, diferente de diversas correntes da MPB que se renovam e são revisitadas com frequência, o legado do Clube da Esquina tem sido “ativado” com uma frequência cada vez menor ao longo do tempo. Digo isso mais como palpite do que como amostragem séria, tomando a liberdade de citar alguns exemplos a esmo (e correndo o risco de deixar muita coisa de lado): após o primeiro passo no fim dos anos 60 e início dos 70 (elaborada na obra de seus fundadores; Milton, Beto, Lô, etc.); houve uma segunda geração no fim dos 70 (Flávio Venturini, Tavinho Moura, e mesmo gente como Zé Renato, Claudio Nucci, etc.); até que, dos anos 90 em diante, o Clube ressurgiria mesmo só em iniciativas isoladas. Gente como Luiz Guedes e Thomas Roth nos anos 80; Flávio Henrique, Chico Amaral e Marina Machado nos 90; e Pablo Castro ou Liz Valente depois dos 2000. As razões disso acontecer? Ficam para outro texto (mas há palpites: a dificuldade harmônica, melódica e instrumental; o incentivo ao espírito coletivo incapaz de tocar o individualismo das novas gerações… e por aí vai).

Foi em 2010 que Milton Nascimento – o ser que deu cara, coração e alma ao Clube da Esquina – iria revelar, através de seu disco E a Gente Sonhando, que havia de fato uma legião de jovens dispostos a novamente garimpar a tradição musical mineira. Um desses novos talentos é o três-pontano Ismael Tiso, que teve a música “Do Samba, do Jazz, do Menino e do Bueiro” gravada por Bituca nesse disco supracitado. Atualmente tocando no grupo Compasso Lunnar, eis que Ismael lança em 2016 seu primeiro trabalho solo, Ventos do Sul.

 

Banda Compasso Lunnar

Banda Compasso Lunnar

 

Para situar rapidamente a estilística desse CD, seria possível dizer que é como se Tavinho Moura e o Beto Guedes dos anos 70 realizassem algo em parceria (apesar de que há pitadas de Toninho Horta e Lô Borges em diversos momentos. Aliás, essas “pitadas” são algo presente em quase todos os discos antigos do Clube, onde a grande irmandade de músicos se revezava nos seus trabalhos em geral). Por se tratar de um trabalho de um instrumentista das seis cordas, os violões e guitarras tem destaque notável. Vale mencionar também outros tantos músicos como Clayton Prosperi, Lisandro Massa ou Dedê Bonitto, que garantem um luxuoso e competente apoio de banda.

No aspecto vocal, Ismael se apropria do que seria um entre dois ramos de cantores “clubistas”: o dos instrumentistas que oportunizam a voz que dispõem. Enquanto há alguns intérpretes notáveis circulando no movimento – Milton como o maior, e, orbitando ao redor, outros como Tadeu Franco ou Tunai – , há as vozes de Lô Borges, Tavinho Moura ou mesmo Toninho Horta, todos músicos e harmonizadores que desenvolveram também uma assinatura no aspecto vocal. Este é apenas um dos desdobramentos “joão-gilbertianos” no Clube da Esquina; a saber, a legitimação de formas de cantar menos dependentes da impostação dos intérpretes privilegiados, como os da era do rádio. Nesses casos, tratam-se de cantos limpos, com dicção clara e sem pudor de recorrer a recursos como os falsetes. É nesse ramo que Ismael se integra, com competência.

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Nas composições, Ismael não só apresenta letristas como João Marcos Veiga e Miller Sol, mas ele próprio se encarrega de escrever também alguns versos. E o aspecto lírico se revela tão afinado ao ethos clubista quanto o aspecto melódico: há os elementos da natureza, amizades, oração, “cor de vento”; só para ficar em algumas imagens. Tratam-se de letras inspiradas, originais, dispostas a atualizar na contemporaneidade a ótica subjetiva e subversiva exercitada por autores como Márcio Borges e Murilo Antunes.

“Revoada” abre o disco com um tema quase que inteiramente tocado por Ismael, com uma levada mais regional puxada pela percussão e pelas violas. A Primeira” tem uma das mais marcantes melodias desse repertório, certamente polinizada pela “Horta” de Toninho. A já citada “Do Samba, do Jazz, do Menino e do Bueiro” faz jus aos estilos citados no seu título, e, nos arranjos desse disco, tanto a levada quanto o timbre remetem a alguns bons trabalhos de samba jazz, como de Eumir Deodato ou Azymuth, por exemplo. “Reino de Pedras” não faria feio se figurasse em discos como A Via Láctea, de Lô Borges. “A Nossa Raiz” oscila belamente entre o jazz e a MPB. “Outono” é curta, truncada e misteriosa. E, por fim, “Ventos do Sul” se revela muito adequada para fechar o trabalho (e também para batizá-lo), por se tratar de um ótimo cartão-postal que reúne as grandes qualidades do disco. É uma composição inspirada, delicada e cativante.

Não é apenas a maturidade das canções e interpretações que faz de Ventos do Sul um disco recomendável, tampouco seu elo de descendência legitima do Clube da Esquina; mas sim uma mistura entre esses aspectos citados e a originalidade de Ismael Tiso. Em seu trabalho de estreia, fica claro que o músico tres-pontano tem uma contribuição válida e relevante a oferecer para a tradição na qual ele se insere. Suas músicas são capazes de revigorar todos aqueles ouvintes e fãs que esperam por continuadores talentosos para a música mineira e brasileira.

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Fernando Brant, o menino sentinela das esquinas

Morte vela sentinela sou / do corpo desse meu irmão que já se vai / Revejo nessa hora tudo que ocorreu / memória não morrerá”.

Diante da perda de Fernando Brant, autor de algumas das mais emblemáticas canções do Clube da Esquina, me vem à mente uma de suas mais belas letras, “Sentinela”, e que uso aqui como metáfora para pensar a relevância e a perenidade do que ele e sua obra significam para a música popular brasileira.

“Sentinela” foi talvez a primeira letra em todo o lastro de canções do Clube a assumir um viés memorialista. De acordo com Brant:

“Sentinela” foi uma viagem imaginária, onde aproveitei uma referência pessoal para falar também da realidade política brasileira daquele momento, final dos anos 1960. A letra é um pouco anterior ao AI-5. Em princípio, eu tinha falado com o Bituca que iria fazer uma homenagem ao Seu Francisco, que servia café lá no Juizado de Menores, onde eu trabalhava. Para mim o Seu Francisco era um tipo de pessoa que significava um monte de coisas, um sábio. Era um cara do povo que estava vivo e forte, mas imaginei a história dele mais para frente, o dia de sua morte, o velório, e o que aquilo representava para mim. (…) Mas por isso mesmo, por ele ser esse irmão querido, eu tinha que continuar, ser fiel à memória dele (BRANT. Apud: VILARA, 2006, p.67).

Ainda no início do Clube da Esquina, um jovem Fernando Brant já se atentou para o fato de que a memória não é apenas algo estanque, cristalizada em livros de história e bustos de generais. Um dos mais fecundos legados da memória da humanidade está na oralidade, nas histórias passadas de geração por geração oralmente. Tanto é que mesmo culturas que não se amparam tanto na escrita quanto outras culturas ditas “civilizadas” tem também seu lastro de memória.

Um narrador de esquinas

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Dentro do Clube da Esquina, acredito que as letras de Brant foram as que mais se propuseram ao dever de erigir mitos e documentos de seu universo (Minas Gerais). Ele acabou por encarnar o mesmo arquétipo de “narrador” que enxergara em Seu Francisco, personagem principal de “Sentinela”. Através do suporte da letra de canção popular, Brant se propôs a legar para as futuras gerações uma série de dados culturais de Minas Gerais que não poderiam se perder no tempo.

Essa figura do narrador foi muito bem descrita por Walter Benjamin, em seu ensaio Experiência e Pobreza:

“Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes com narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?” (BENJAMIN, 1993, p.114).

Documentos poéticos

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Fernando Brant

Em 2008, quando entrei no mestrado em letras disposto a pesquisar as canções do Clube da Esquina, encontrei nas letras de Brant toda a profundidade que eu precisava. Como o mestrado da UFSJ se pautava pelo campo teórico conhecido como Estudos Culturais – que tratam de temas relacionados a memória, identidade, colonialismo, multiculturalismo, gêneros, etc. – , pude assim encontrar um viés bem adequado com a metodologia que iria aplicar.

Se fizermos um recorte das letras escritas por Fernando Brant, diversas delas apresentam um aspecto de narrativa, e, mesmo quando tratam de utopia, sempre partem do real (passado ou presente). Essa veia de “documentarista-poético” dos contextos vividos ou ouvidos guarda uma relação com o papel de um diretor de cinema, como nos relata o próprio Brant:

“Lembro-me que toda vez que saía de casa para ir a Biblioteca Pública, na praça da Liberdade, eu descia a Aimorés e subia a Brasil fazendo filmes, enquadrando tudo o que via. Meus olhos eram uma câmera. Na verdade, eu não tinha olhos, carregava o tempo todo uma câmera no rosto (BRANT, Fernando. In: VILARA, Paulo. Op.cit. pág.37).

Guardião da memória

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O Clube da Esquina em Diamantina. Da esq para a dir.: Lo Borges, Fernando Brant, Juscelino Kubitschek, Márcio Borges e Milton Nascimento.

O caminho estético que marcou Fernando Brant no Clube da Esquina teve similares na literatura. De acordo com Wander Melo Miranda, diversos escritores de Minas Gerais – como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes ou Pedro Nava – produziram textos memorialistas no período da ditadura militar. Sua intenção era a de evidenciar alguns traços valiosos da cultura que ameaçavam ser extintos através do projeto modernizador dos militares.

Diversas letras de Brant funcionam como rochas líricas que guardam estes monumentos perdidos da identidade mineira. Em Beco do Mota, ele fala de uma rua boêmia de Diamantina, e utiliza o fim dessa zona como metáfora para a repressão da ditadura.

Em Aqui Óh, ele fala dos nostálgicos “namorinhos de portão”, ao mesmo tempo em que discute também o caráter desconfiado e esquivo dos mineiros.

Em Nos Bailes da Vida, podemos sentir toda a emoção e a sinestesia da sofrida vida dos músicos que cumprem sua vocação, mesmo em condições pouco glamorosas.

Em Ponta de Areia, ele transforma em letra de canção uma matéria que fez quando era repórter da revista O Cruzeiro, sobre uma linha de trem que ligava os estados de Minas Gerais e Bahia. Em todo o circuito percorrido pelo trem, ele elenca diversos traços culturais que ameaçavam se perder em meio ao propósito militar (a começar pelo próprio transporte ferroviário).

Em Maria Maria, ele nos mostra a doída beleza da mulher humilde, da face feminina de um Brasil trabalhador, maternal, forjado na simplicidade.

Um sentinela no interior do Clube

É importante aqui pensar no que significa as letras de Fernando Brant dentro do Clube da Esquina. Se pegarmos o movimento como um todo, é possível notar um enfoque mais introspectivo da lírica geral. Há sempre um eu-lírico em primeira pessoa, que observa não só os fenômenos a seu redor, mas também narra seus próprios devaneios e utopias. As letras de Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Murilo Antunes e outros se beneficiam bastante desse tipo de perspectiva. São fluidas, subjetivas, misteriosas.

O estilo de Brant guarda algumas diferenças com seus parceiros. É essa diversidade de panoramas (apesar de um ângulo lírico comum) que sedimentou a assinatura e a glória do Clube da Esquina. Porém, enquanto os outros letristas caminhavam de olho em nuvens ciganas, nascentes, ou mesmo girassóis da cor de cabelos, Brant mantinha o foco no chão.

Arriscando aqui um exercício metafórico, se eu fosse compor a paisagem lírica do Clube da Esquina, pensaria em Ronaldo Bastos como o vento, Márcio Borges como a água, e Fernando Brant como a pedra (não a toa, seu nome completo é Fernando Rocha Brant). É este último o mais atento na dimensão palpável e concreta do seu entorno.

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Da esq. para a dir.: Ronaldo Bastos, Novelli, Fernando Brant, Márcio Borges e Tavinho Moura.

Pedra mineira

fernando_brantRemetendo a Drummond, a letra de “Itamarandiba” (do disco de Milton Nascimento Sentinela (1980), diz: “No meio do meu caminho / sempre haverá uma pedra / Plantarei a minha casa / numa cidade de pedra”.

Ao buscar guardar a memória de Minas Gerais através das letras, Brant empreendeu um mergulho radical na própria essência desse alicerce cultural. Nesse movimento, creio que ele acabou se deparando com o universo da infância, com os valores primordiais da criança, sempre abertas para a amizade e o amor.

O próprio ethos do Clube da Esquina, já a partir do nome do movimento, trata exatamente desse encontro descompromissado da juventude, dessa amizade que não pede nada em troca, que apenas celebra a vida de maneira pura e jovial.

Se Fernando Brant era um alquimista da pedra filosofal da mineiridade, ele encontraria nos vestígios moleculares dessa rocha algumas verdades fundamentais. Ali, ele pôde ler que um amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves. Ou que o medo de amar é o medo de ser livre.

O Brant que conheci

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Pude perceber, no breve contato pessoal que tive com Fernando Brant, que seu compromisso com a amizade era não só um pressuposto de estilo de escrita, mas também uma ética de vida.

Entrei em contato com ele em meados de 2010, depois de saber que ele se interessou em ler minha dissertação de mestrado. Ao enviar meu trabalho, perguntei se ele teria disponibilidade e interesse em redigir um prefácio para um futuro livro que eu cogitava publicar.

Ele não só escreveu um texto fantástico para o livro, como compareceu pessoalmente ao lançamento, que aconteceria em 2013. Foi uma surpresa vê-lo entrar na Livraria Quixote, em BH, com seu jeito discreto e simples.

No alto de tudo que aquele homem representa para a cultura brasileira, fiquei muito honrado e admirado de perceber que ele se encontrava aberto para comungar seu saber com um jovem pesquisador que lançava seu primeiro livro. A coerência entre a vida e a obra de Brant é um valioso ensinamento que levo comigo.

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Eu e minha família transbordando de alegria ao encontrar Fernando Brant. 2013.

O menino

Em 2004, falecia o escritor mineiro Fernando Sabino, que deixara instruções para o epitáfio escrito em sua lápide: “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”. Dentre as coincidências que ligam os Fernandos Sabino e Brant (ambos mineiros, artistas, e morreram de câncer de fígado), há também o olhar especial para a infância em suas obras.

fernando_brant2Porém, diferente de Sabino, que alega ter rejuvenecido ao longo de toda a vida (para então constatar sua “meninice” apenas nos anos derradeiros), acho que Fernando Brant nunca deixou de preservar seu feitio de criança, no melhor sentido do termo.

Desde a primeira vez em que bati o olho numa foto do compositor do Clube da Esquina, pensei comigo que ele tinha cara de menino. Diversas letras suas tratam do universo infantil: Bola de Meia, Bola de Gude é, talvez, a mais famosa delas.

Em entrevista ao jornalista Paulo Vilara, Brant dissertou sobre a importância de se observar com os olhos da criança que foi. Para ele, o adulto deveria honrar a criança que foi um dia.

Nesse momento de tristeza, quando nos deparamos com a “travessia” final desse ser humano cuja obra é tão importante para tanta gente, acredito que seu objetivo se cumpriu de maneira exemplar. Os que ficam são capazes de enxergar na figura de Fernando Brant a criança, e também o sentinela. Diante desse nosso irmão que que já se vai, revemos nessa hora tudo que ocorreu, com a certeza de que a memória não morrerá.

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BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993.

VILARA, Paulo. Palavras Musicais – Letras, processo de criação, visão de mundo de 4 compositores brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes, Chico Amaral. Belo Horizonte: S.ed., 2006.

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A crise universitária dos EUA, e suas lições para o Brasil

Em tempos de professores espancados por quererem direitos básicos, é oportuno assistir ao documentário Torre de Marfim, lançado esse ano, que escancara o tamanho da crise nas universidades americanas.

Diferente do Brasil, onde a falta de condições para os professores trabalharem acaba afetando também os alunos, nos EUA o grande pepino fica só com os alunos. Por “pepino”, me refiro não a um déficit de conteúdo, mas sim às dívidas que eles contraem. Porque, diferente daqui, as universidades públicas e privadas lá cobram uma anuidade, que, ao longo do século XX teve um aumento de mais de 1000%. Somada a dívida de todos os alunos e ex-alunos do país, nos deparamos com a absurda cifra de mais de um trilhão de dólares.

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O filme mostra casos de alunos que se formam com dívidas de mais de 100mil dólares. Uma estudante conta que, mesmo com mestrado, não consegue empregos à altura de sua formação, enquanto os cobradores ligam sem parar. Caso ela queira ter filhos, a aterrorizante perspectiva é a de que eles herdem sua homérica dívida (que não para de crescer por causa dos juros).

Em meio à tamanha crise do setor educacional, era normal esperar que aparecesse alguém com senso de oportunidade, e a bola da vez em meados de 2013 caiu para empresas como Udacity, promovendo o que eles chamam de Grandes Cursos Abertos Online. As aulas via you tube pareciam ser a tábua de salvação do ensino americano. Mas… com taxas de aprovação que eram de aproximadamente 20%, a falta de um professor presencial ficou evidente.

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Nos EUA, eles tem seus professores em alto respeito, e pagam bons salários. Assim, foi possível manter um alto nível de seu corpo docente, sem contar o leque super variado de universidades por todo o país: algumas no formato de “internato” unisex, outras mais “festivas”, algumas comunitárias mais modestas, e há até alternativas como o Thiel Fellowship, que não é universidade mas oferece “por fora” oportunidade de conhecimento e interação humana (sem o ônus da dívida, e nem o diploma universitário).

Apesar disso, a crise é gigantesca, e ela passa pelas medidas privatizadoras tomadas por Ronald Reagan no fim dos anos 70, primeiro como governador e depois como presidente. Ele acreditava que o estado não deveria “subsidiar a atividade intelectual”, e tentou até mesmo acabar com o Ministério da Educação.

No Brasil, nossa crise é muito mais complexa, envolve problemas o sucateamento das instituições, e, acima de tudo, a desvalorização do professor como trabalhador, como cidadão, como agente de mudança na sociedade. E, como se não bastasse, vez ou outra ventila-se a ideia de privatizar nossas universidades, copiando um modelo que, já no presente da grande potência mundial, agoniza dívidas que alcançam seus 15 dígitos.

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Ao longo do filme, diversas pessoas questionam o futuro da universidade, questionando se este é um modelo falido ou válido para a circulação de saberes e vivências de aprendizado. Em vez de uma resposta pronta, o filme mostra de maneira dinâmica como os EUA estão lidando com isso, em termos teóricos e práticos. E é bem evidente que, crises à parte, não surgiu ainda uma alternativa que provasse estar à altura da tradição e do alcance das universidades. Mas existem urgências que precisam ser sanadas rápido: basicamente, envolve seus modelos administrativos, suas fontes de financiamento, e um acesso para estudantes de todas as classes e origens – aos moldes vigentes das primeiras universidades americanas nos séculos XVIII e XIX.

The Analogical Song: o mundo antes dos bits

Esta é a parte 2 do ensaio “Porque somos tão obcecados pelos anos 60 e 70″.

Saiba mais aqui.

Na parte anterior deste ensaio, acompanhamos o panorama dos anos 60 e 70 em seu aspecto de cultura de massa e consumo. Agora, tentaremos entender algo ainda mais minucioso, porém indispensável para se pensar no fetiche dessas décadas citadas acima: o fator analógico.

1c29c85cfffe037a40b28cc51a2b4c93A melhor maneira que encontrei para diferenciar as tecnologias analógica e digital está nos botões de volume. Se você quiser aumentar ou diminuir o volume em aparelhos de som mais antigos, tipo os da Gradiente ou Vox, você irá encontrar um enorme botão redondo que gira para lá e para cá. Já nos aparelhos mais novos, o volume é regulado por botões de + e -, através de painéis numerados digitalmente. Ou seja: o analógico exige uma certa mão de obra do ouvinte, mas lhe possibilita fazer regulagens milimétricas. Enquanto isso, o digital oferece comodidade, mas deixa o ouvinte submisso à padrões e regulagens previamente configuradas.

Quase sempre, pensa-se no analógico como algo que se refere à tecnologia; contudo, acredito que haveria uma espécie de “espírito” analógico, algo que diz respeito também aos hábitos e expressões culturais da época. Portanto, vamos tentar buscar essas questões desde o início. Façamos então uma viagem de volta aos anos 70 – porém não os do século XX, e sim nos anos 70 do XIX.

O início

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À esquerda, Thomas Edison e o seu fonógrafo pioneiro, séc XIX. À direita, Emile Berliner e o seu fonógrafo em 1920.

Em 1877, Thomas Edison criou o primeiro fonógrafo capaz de gravar e reproduzir som. O aparelho funcionava através das impressões captadas por uma agulha, em contato com os sulcos de uma superfície cilíndrica. Dez anos depois, em 1887, Emil Berliner aperfeiçoaria este sistema para criar o gramofone, que utilizava discos planos espiralados em vez de cilindros. A invenção do gramofone favoreceria a produção em massa de discos, preparando assim um vindouro mercado de comercialização de música.

Pela primeira vez na história, as pessoas poderiam adquirir música! Porque, antes das primeiras gravações, só era possível ouvir músicas que fossem interpretadas ao vivo. Se pensarmos bem, mesmo outras formas de arte eram apreciadas em ambientes específicos – por exemplo, as pinturas, que atualmente apreciamos em catálogos, revistas ou na internet; mas que antes do século XIX só podiam ser vistas em museus ou igrejas. Hoje em dia parece banal para nós armazenar e comprar discos, ou baixa-los na internet. Mas, antes do século XX, era absurdo imaginar que poderíamos levar música para nossas casas da mesma forma que comprávamos açúcar, carne ou roupas.

No início do século XX, gravadoras pioneiras desenvolveram os primeiros fonógrafos e vitrolas, de nomes exóticos como Vivatonal ou Ortophonic. Enquanto isso nos estúdios, artistas eram gravados sem quaisquer recursos que permitissem uma melhoria do material sonoro. Eram gravações rudimentares, sem lapidação, ainda que esse aspecto precário soe para nós hoje em dia um tanto quanto charmoso (as gravações rústicas do blueseiro americano Robert Johnson, ainda na década de 30, são um dentre tantos exemplos do quão interessantes esses registros lo-fi podem ser).

Dois fatores contribuíram para aprimorar a experiência sonora dos discos: o primeiro foi em 1948, quando os laboratórios da CBS nos EUA divulgam suas pesquisas com discos de microssulco, cuja produção e prensagem levavam um material conhecido como “vinilyte” (ou vinil, que permitia uma reprodução de longa duração – daí a alcunha de “long playing”, ou LP).

O outro fator ocorreu em 1953, quando finalmente foi instituída a curva de equalização RIAA (o nome vem de “Record Industry Association of America“). Através dessa padronização, as equalizações e características de reprodução passavam a ser reguladas com o mesmo parâmetro para todas as gravadoras (até então, cada gravadora equalizava os discos do seu jeito).

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O auge

Aí chegamos nos anos 60 e 70. É quando há toda uma melhoria dos instrumentos e equipamentos para gravação sonora. A começar pelas mixagens em estéreo, diferentes dos sistemas em mono mais antigos, onde todo o som era finalizado em um único bloco, sem tanta inventividade. Na mix em estéreo, pensa-se nas caixas de som como se fossem os ouvidos humanos. A forma como o som chega em cada um dos ouvidos, através de microdiferenças inevitáveis entre o lado esquerdo e direito, produzem no cérebro humano percepções de espaço, textura, profundidade, etc. É um dado natural do organismo humano que foi otimizado para o resultado em estéreo.

Além disso, novos dispositivos conseguiram aprimorar a execução e interpretação das músicas. Como o surgimento dos compressores, que faziam um sussurro soar tão audível quanto um solo estrondoso de saxofone. Ou os amplificadores valvulados e os pedais de distorção, que elevaram o som das guitarras a um nível inimaginável. Ou ainda os teclados elétricos que apresentavam tessituras e timbres nunca antes escutados. Além de diversos efeitos – delays, reverbs, phasers, etc. – que conferiam vida e brilho à todas as produções da época.

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E aqui devemos acrescentar o seguinte: o fascínio pela tecnologia analógica ia além do espectro sonoro. O visual dos anos 60 e 70 é um elemento primordial para entender seu fetiche, e, aqui, nos referimos tanto aos vídeos quanto às fotografias. Esse registro analógico das imagens era bem mais espontâneo e menos automático que na atualidade. E era complexo – envolvia o manuseio e o custo dos filmes (sobretudo as películas), a fotometria que deveria ser exata, a medição da temperatura de cor, a necessidade da luz vermelha de segurança para não queimar os filmes, a revelação manual…

Porém, todos os pressupostos técnicos rigorosos que a imagem analógica demandava de seus profissionais eram compensados pela textura das fotografias e filmagens. Exemplo do fetiche gerado por esse resultado é o fato de que a maioria dos atuais filtros usados em imagens digitais tenta emular o que as câmeras analógicas faziam naturalmente. Além do mais, na época não haviam presets de fábrica, e eram bem reduzidas as possibilidades de montagens e efeitos de pós-produção. O mérito da imagem dependia fatalmente do olhar e da perícia do fotógrafo.

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O declínio

Apesar do sistema de som analógico vigorar, ele já continha em si mesmo um problema sob o qual executivos e técnicos de som se debruçaram por décadas. Basicamente, o som dos discos de vinil é gerado pelo contato da agulha da vitrola com os sulcos do disco. Contudo, na medida em que esses discos são tocados mais e mais vezes, o atrito entre a agulha e o disco vai deformando e alargando o tamanho dos sulcos. Por isso, os discos teriam um prazo de validade proporcional ao seu uso. Sem contar que a reprodução que o fonógrafo consegue realizar do disco não é muito fiel, podendo ocasionar ruídos e distorções.

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É aí que, nos anos 80, surge o formato digital, que vai lentamente se popularizando e amealhando todas as cadeias do mercado, passando pela produção (mesas de gravação em estúdios, computadores, etc, além de instrumentos como teclados e baterias), pelo produto em si (nos anos 80, são comercializados os primeiros CDs), até chegarmos nos dias atuais, onde até mesmo a distribuição (via internet) depende dos meios digitais.

As tecnologias digitais funcionam através de um armazenamento numérico – a onda analógica é convertida em sequências de números digitais. Na reprodução, a conversão oposta é feita, ou seja, o sinal numérico digital é reconvertido para o analógico. Se os discos de vinis e seus sulcos envolviam um armazenamento de som ainda submisso à condições materiais, o formato digital torna o processo quase todo que independente dessas mesmas condições. Desde que os números não estejam corrompidos, a reprodução será de alta fidelidade, e não registrará a menor perda sequer. Através de duas variáveis – taxa de amostragem (sampling rate) e quantização (sampling precision) – , é possível gerar uma conversão analógico-digital impecável, a ponto do resultado final ser uma reprodução sonora que parece praticamente perfeita para os ouvidos humanos.

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O curioso disso é pensarmos o seguinte: se o digital substituiu e quase que extinguiu o analógico, deveríamos presumir que esse processo implicaria em uma evolução das tecnologias sonoras, não? Na verdade, perdeu-se e ganhou-se em diversos aspectos. Antes de mais nada, a tecnologia digital oferece possibilidades mais práticas e acessíveis à indústria musical, e tudo isso por um preço mais em conta. A distribuição digital é tremendamente ágil – fator que pode ser tomado como trunfo, mas que não podemos esquecer que acabou gerando um problemão para o comércio de música, a ponto de abalar e remodelar toda a cadeia do mercado.

Sobre as perdas, a que seria supostamente a maior delas talvez seja ainda um assunto mal resolvido: a qualidade das gravações em vinil versus as dos CDs e mp3. Dizem que a tecnologia digital preserva mais as frequências agudas, enquanto o vinil conserva mais as graves, e por aí vai. Tanto ouvintes quanto engenheiros de som tem seus argumentos para os dois lados, e parecem longe de um consenso.

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Produtores como Graham Sutton alegam que a quantidade de chiado de um disco de vinil suplanta todas as supostas frequências adicionais que ele poderia ter em relação ao CD. Além disso, ele afirma que boa parte da preferência pelo vinil envolve mesmo é nostalgia:

“Também há um apego sentimental no mundo do rock, que se apoia no elitismo, ao analógico – o cheiro da fita e o amor por máquinas grandes, velhas e empoeiradas – isso não acontece muito em outras áreas da música, por exemplo, no clássico, jazz, EDM, rádio, filme, onde esse debate acabou há muito tempo”.

Em uma análise técnica da questão vinil X CD, Teo Oliver esclarece que, diferente do mito de que vinis tem mais “graves” ou mais “calor” que os CDs, na verdade os vinis teriam mais agudos que os CDs, podendo chegar à 45khz ou até mais. Contudo, essa seria uma diferença irrelevante, já que o ouvido humano só pode ouvir até 22khz. A chiadeira, contudo, é algo bem audível (ainda que os amantes do bolachão adorem…).

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Um dos fatores mais gritantes (literalmente falando) por trás desse mito é um fenômeno chamado de Guerra dos Volumes. O assunto é grande, e por si só demandaria um longo artigo. Mas, em resumo, envolve o fato de que, desde que a mídia CD tornou-se o padrão de mercado, os estúdios tem exercido uma prática de aumentar os volumes das mixagens de maneira abusiva. Ao longo dos anos, isso se tornou um problema de saúde pública, e comprometeu a audição de décadas de música. Muitas vezes, achamos que a produção de um artista novo é ruim, mas, na verdade, ele está aprisionado a padrões mercadológicos de produção sonora de super compressão. Nesse texto, é possível entender melhor o problema. E, ao que tudo indica, ações efetivas tem sido feitas para acabar com isso de uma vez por todas.

Contudo, o que parece mesmo unânime envolve os instrumentos antigos. Teclados e amplificadores valvulados, por exemplo, soam infinitamente melhor que os atuais. Músicos pagam uma fortuna por guitarras, baixos e teclados antigos – e não é apenas para tirar onda com a data de fabricação, e muito menos por hype. O acabamento dos instrumentos de décadas passadas é ainda hoje uma referência inabalável de padrão de qualidade.

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Conclusões e reflexões

Por fim, há implicações que podemos analisar sob um prisma mais filosófico. Da mesma forma que a tecnologia digital é dependente de parâmetros previamente calculados (presets, equalizações automáticas, etc.), toda a produção e comercialização de música atual parece igualmente burocratizada. É raro encontrar um artista ou banda na grande mídia que alcance uma radical liberdade criativa com sua proposta. Isso iria na contramão do atual formato da indústria, compartimentalizada em nichos de mercado – algo explicado através da teoria da cauda longa que o físico estadounidense Chris Anderson popularizou em 2004, em um famoso artigo para a revista Wired.

Tratamos aqui quase o tempo todo de aspectos da tecnologia, mas acredito que há um outro elemento crucial no fetiche dos anos 60 e 70 que funciona quase que como uma metáfora das relações entre analógico e digital. Me refiro aos corpos, e à estética social e cultural vigente na época – roupas soltas, cabelos e barbas compridos, e toda e qualquer excentricidade permitida.

Em contraponto aos parâmetros digitais, a flexibilidade analógica combina perfeitamente com a falta de regras nos anos do flower power sessentista e ainda mais na loucura dos anos 70. Era uma cultura de massa, tanto quanto ainda o é hoje em dia, mas bem menos aprisionada a padrões – fossem eles padrões de beleza, de moda, de gênero, estilo, ideologia…

Assim, concluo pensando que, talvez, o fetiche pelos anos 60 e 70 possa ser sintetizado em duas esferas de raciocínio. De um lado, a familiaridade que nós, do início do século XXI, nutrimos pelo contexto de massa da modernidade, já presente na época. Por outro lado, há o fascínio pela profunda liberdade e experimentação que havia nessa maneira de existir, experimentada no âmago de uma cultura massiva ainda não tão estruturada.

No nosso presente pós-moderno e completamente preconfigurado por sistemas operacionais digitais, sufocados que estamos por essa frieza binária a la Matrix, talvez o fetiche se resuma a uma saudade das utopias e dos delírios granulados e analógicos dessas décadas anteriores.

Fontes

http://tiraduvidas.tecmundo.com.br/36163

http://super.abril.com.br/ciencia/como-funciona-som-estereo-441989.shtml

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sinal_anal%C3%B3gico

http://lazer.hsw.uol.com.br/questao7.htm

http://tecnologia.hsw.uol.com.br/gravacoes-audio2.htm

http://tecnologia.hsw.uol.com.br/gravacoes-audio3.htm

http://www.zun.com.br/tecnologia-digital-e-analogica/

http://tecnologia.hsw.uol.com.br/conversores-de-alta-definicao1.htm

http://whiplash.net/materias/news_839/154982-defleppard.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Johnson

http://www.fazano.pro.br/port136.html

http://www.fazano.pro.br/port137.html

http://omeuolhar.com/artigos/comparacao-maquinas-fotograficas-digitais-analogicas

http://www.tecmundo.com.br/fotografia-e-design/43620-a-volta-das-cameras-analogicas-no-mundo-digital.htm

http://melhorangulo.com/2012/09/entendendo-fotografia-analogica-e-lomografia/

http://f508.com.br/7-motivos-para-voltar-para-a-fotografia-analogica/

http://whiplash.net/materias/news_805/220476-audio.html

Paz, amor e consumo

Esta é a parte 1 do ensaio “Porque somos tão obcecados pelos anos 60 e 70″.

Saiba mais aqui.

A geração que nasceu no fim da segunda guerra mundial chegava à adolescência bem nos anos 60. São pessoas que cresceram sob a sombra de uma hecatombe nuclear que assolaria o mundo a qualquer momento. Para esses jovens, o mundo de seus pais era algo que deveria ficar para trás. “Faça amor, não faça guerra”, dizia o filósofo frankfurtiano Herbert Marcuse, sintetizando um lema que marcaria desde o “bed-in” de Lennon e Yoko até à narrativa do premiado musical Hair.

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Atenção, jovens brasileiros do século XXI, não façam isso em casa!

Se a indústria bélica americana tinha demandas que não pareciam adequadas aos anseios juvenis, a indústria cultural acabou por abraçar (leia-se “capitalizar”) os desejos de toda uma geração – paz, amor, e diversão. Soma-se a isso o fato de que os bens de consumo se beneficiaram de um “upgrade” tecnológico da época, como as TVs à cores (inovação que também beneficiaria o cinema).

No caso da música, isso era notável em diversos aspectos: agora os artistas podiam fazer grandes shows ao vivo em estádios (e dá-lhe Woodstock, Isle of Wight, Altamont, etc.), aperfeiçoamento dos instrumentos valvulados (guitarras de diversos modelos, pedais de distorção, wah-wah, e outros; sintetizadores como moog, mellotron e hammond, etc.), além do som estéreo (e, posteriormente, o quadrafônico), tudo isso registrado em estúdios de gravação com diversos canais disponíveis simultaneamente.

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Pink Floyd Ostentação

Além do mais, as gravadoras agora aperfeiçoavam a “embalagem” de seus produtos, através das capas dos discos, e cada vez mais introduzindo um merchandising paralelo à música, como posters, camisas, shows em vídeo, e outros badulaques.

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Foi um momento em que o grande sonho de uma geração se viu representado pela indústria de massa. Havia ressonância entre a cultura jovem – de elite ou da periferia, do primeiro ou do terceiro mundo – e os produtos que chegavam às prateleiras dos comércios. Creio que o fato de toda a ideologia e rebeldia da época ter sido capitalizada não diminui a sua validade. Prova disso é que a mensagem de boa parte dos artistas daquele tempo duram e são apreciadas ainda hoje. Uma letra como a da canção Imagine não assume um tom hipócrita simplesmente porque o disco de John Lennon está à venda em uma loja.

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You Never Give Me My Money

Fashion 60Para nós que vivemos no século XXI, a cultura dos anos 60 e 70 é o melhor de dois mundos: são conteúdos que atendem nossos anseios de massa, de entretenimento pop, bem diferentes da arte de outras épocas, mais codificada, intelectualizada, e sem potencial de ser espetacularizada. Por outro lado, soava verdadeira, íntegra, sincera, apesar de sua faceta capitalizável.

Claro que a maneira como essa relação arte-comércio se operava é bem diferente de hoje em dia. Vendia-se muitos discos, e isso era o elemento principal. Artistas e gravadoras não precisavam pensar em ganhar dinheiro através de shows, jabá, merchandising, ou de trocentas versões remasterizadas de um trabalho. Não que essas práticas paralelas não existissem: contudo, a vendagem dos discos sustentava toda a estrutura. O inverso de hoje em dia, onde a música gravada circula em um fluxo de gratuidade, através do compartilhamento de mp3, vídeos do you tube, streaming, etc. Gravar e divulgar música tornou-se quase que um “cartão de visita do artista”, para que ele possa vender todas as outras coisas que nem sempre se relacionam com a música em si.

Assim, a música era valorizada, e não apenas no aspecto monetário. Na minha família, por exemplo, contam-se histórias que hoje em dia soam folclóricas, sobre como alguns parentes meus se encontravam com frequência para ouvir música juntos. Pois é, não era para conversar, jogar baralho, estudar, ou tomar cerveja (ok, talvez rolasse um cigarrinho estranho, no máximo…). O ponto nevrálgico por trás do encontro era ouvir música. Colocavam um vinil (quase sempre do Pink Floyd) na vitrola, desciam a agulha, e ficavam quietos durante trinta ou quarenta minutos, apenas ouvindo o som. Algo impensável em nossa era de visualidade e interatividade.

Hoje em dia, a música é quase que uma trilha de fundo para qualquer outra coisa. Como se o mundo tivesse se transformado em uma gigantesca sala de espera de consultório odontológico. Música transformou-se em ruído de fundo, em adereço, sob o qual tantas outras coisas são comercializadas: roupas, filmes, ingressos de festival. O universo musical e seus artistas são, ainda mais que antigamente, carimbos simbólicos que legitimam as diversas tribos urbanas. O som que uma pessoa ouve está diretamente conectado com quem ela é ou quer ser.

Não que não fosse assim no passado – mas, pelo menos antigamente, ouvia-se música. Hoje em dia, com a baixa qualidade dos mp3, e a alta oferta por conteúdo na internet, talvez se ouça mais música em geral, mas certamente presta-se pouca atenção no que é ouvido. A ironia é que, no mundo da música, as ambiências sonoras talvez tenham deixado de ser o aspecto mais relevante.

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Leia a parte 2 do ensaio, The Analogical Song: o mundo antes dos bits.

Porque somos tão obcecados pelos anos 60 e 70

Em 2012, Joe Elliott, vocalista da banda britânica Def Leppard, comentou sobre a expectativa da maior parte do público que vai em shows de rock de artistas mais velhos:

As pessoas vão ao show pra ouvir o que elas conhecem. O único lugar ao qual as pessoas vão psicologicamente preparadas para uma hora de música nova é o karaokê de algum barzinho. Você não vai ao Madison Square Garden esperando ouvir duas horas de músicas totalmente novas do Paul McCartney, do Roger Waters ou do The Who. Você vai pra ouvir ‘Quadrophenia’, algo que você já tem há 40 anos. É disso que se tratam esses shows.

É muito comum que alguns artistas mais antigos tenham o repertório de seus primeiros discos minuciosamente decorado pelos fãs, enquanto seus trabalhos mais novos são sumariamente ignorados. Mesmo aquela música mais fraquinha do lado B do disco velho é mais cantarolável para o fã médio do artista do que a obra-prima do disco mais atual. Se você for fã de Paul McCartney, certamente conhecerá canções da sua carreira solo, como Live and Let Die, My Love, Maybe I’m Amazed… certo? Mas e outras mais novas, como Golden Earth Girl? Only Love Remains? Distractions? Lonely Road?

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Só nos anos 70 você podeira encontrar o casal McCartney e David Gilmour (Pink Floyd) de bobeira na platéia de um show dos Stones, anonimamente pitando seu orégano.

Não faltam argumentos para explicar o fenômeno da obsolescência estética da maior parte dos artistas que surgiram nos anos 60 e 70. E eles fazem muito sentido. Por exemplo, se pensarmos no tempo das músicas: as mais antigas estão rodando por aí há mais tempo que as novas; então, é claro que elas tem mais “estrada”, e por isso foram mais assimiladas. Outro raciocínio é aludir à uma glamourização da juventude dos artistas, em contraponto às décadas posteriores, quando ele já está mais enrugado, barrigudo, grisalho, e também calvo; enfim, quando ele deixou de parecer com um “artista” apolíneo, e passou a parecer mais com o seu tio carola.

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Neil Young and Old

Eu não discordo desses argumentos. Mas acho que há uma glorificação e até mesmo um fetiche dos fãs pelos anos 60 e 70. Isso fica bem claro quando visitamos algumas páginas de estilos musicais nas redes sociais. Discos datados dos anos 60 ou 70 recebem mais “curtidas” que discos novos, mesmo que não sejam tão bons quanto as gravações mais recentes. É como se os trabalhos antigos ostentassem um selo de qualidade que os integra à grife mágica de uma suposta era dourada da humanidade. Nem dá para dizer que é puro saudosismo; afinal, muitos jovens que nem eram nascidos na época (eu incluído!) se debruçam mais sobre a produção daquele período do que sobre obras mais atuais.

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Shangri-lá em preto e branco.

Assim, fica a dúvida: que aconteceu nos anos 60 e 70 para alimentar uma veneração tão grande?

Esse ensaio busca refletir sobre a questão. O dividi em duas partes (clique nos links para ler):

Paz, Amor e Consumo – uma análise mais geral, sob aspectos culturais e sociais desse período;

The Analogical Song: o mundo antes dos bits – uma análise mais minuciosa, detalhando as diferenças entre o antigo mundo analógico e o atual mundo digital.

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Alguém me empresta uma caneta, por favor!

Porque Heartland é minha música preferida do U2

Se for pra eu escolher a música mais bonita na longa carreira do U2, seria Heartland, um tema desconhecido do album duplo Rattle and Hum (1988). Tecnicamente, poderia dizer que se trata de uma balada, ainda que o clima soturno e a ambiência apresentem uma profundidade inesperada. Destaca-se aqui a voz de Bono, de uma grandeza à parte, oferecendo uma aula de interpretação.

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A letra é descrita pela banda como a tentativa de fazer uma canção de amor para uma nação – no caso, os EUA. Bono canta sobre locais menos glamourosos dos Estados Unidos, porém são espaços fundamentais para a formação da cultura de lá. Como a lendária rodovia interestadual conhecida como Rota 66, ou os campos de algodão onde trabalhavam os escravos e imigrantes, e até o Rio Mississippi, cujas margens viram nascer o gênero do blues, além de seu curso passar por Graceland, terra de Elvis Presley (o cantor é homenageado no filme Rattle and Hum quando toca esse tema).

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No aspecto musical, apesar da melodia simples (como quase tudo do U2), quase todos os acordes são suspensos, sem o 3º grau, o que os torna indefinidos quanto ao fato de serem maiores ou menores. Bono diz que essa indefinição guarda uma relação com temas da música americana e do blues tocados da mesma forma. O efeito misterioso que surge dessa harmonia “suspensa” faz com que Heartland seja a faixa preferida do co-produtor Daniel Lanois em todo o disco Rattle and Hum.

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Ao especular sobre o sentido da canção, Bono diz: “o diretor alemão Wim Wenders, que dirigiu Paris Texas, disse que a América colonizou nosso inconsciente. Ele está certo. A America está em todo lugar. Se você nunca esteve neste lugar, ele vai até você. É Hollywood, é a Coca Cola, Levi’s, Harley Davidsons. Existe bem e mal nisso tudo, mas de alguma forma você terá que lidar com isso”.

Heartland

See the sun rise over her skin
Don’t change it
See the sun rise over her skin
Dawn changes everything, everything
And the delta sun
Burns bright and violet

Mississippi and the cotton wool heat
Sixty-six a highway speaks
Of deserts dry
Of cool green valleys
Gold and silver veins
Of the shining cities

In this heartland
In this heartland soil
In this heartland
Heaven knows this is a heartland
Heartland

See the sun rise over her skin
She feels like water in my hand
Freeway like a river cuts through this land
Into the side of love
Like a burning spear
And the poison rain
Brings a flood of fear

Through the ghost-ranch hills
Death valley waters
In the towers of steel
Belief goes on and on

In this heartland
In this heartland soil
In this heartland
Heaven knows this is a heartland
Heartland
Heaven knows this is a heartland
Heartland, heartland
Heartland
Heaven’s day here in the heartland

Fontes:
Songfacts
Livro: U2 Into the Heart: The Stories Behind Every Song
Wikipedia