Resenha – Anterior (2013), de Pablo Castro.

Para mim, o disco Anterior, de Pablo Castro, foi o melhor disco de 2013. E, com algum atraso, finalmente publico aqui uma resenha sobre ele.

 

Apesar da minha opinião, me parece improvável que listas de melhores do ano tenham incluído o disco de Castro, por diversos motivos. Esquemas viciados por panelinhas e nichos pré-definidos no mercado quase sempre justificam os rankings e os prêmios na seara musical já há algum tempo. Só digo que se as listas não mencionam esse disco, pior para elas. Enfim, nunca fui um grande fã de listas. Talvez porque o adjetivo “pessoal” do meu gosto é bem acentuado (se me pedirem uma lista das grandes bandas de todos os tempos, incluirei pérolas como Dream Academy ou Wishing Tree). Mas costumo ter bem definidos os motivos pelos quais gosto de determinados artistas.

 

O disco de Pablo traz influências que reverberam em alguns grandes pilares da minha formação musical. No seu som (que Severo Sarduy definiu como “neobarroco”) detecto doses generosas de Beatles e Clube da Esquina, além de toda uma reverência nada óbvia à MPB, passando pela tropicália, ou por cantautores sofisticados e irrotuláveis como João Bosco, Paulinho da Viola, Guinga, etc.

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Gravando Anterior no estúdio.

 

O elo com o Clube da Esquina, contudo, parece emergir com mais intensidade nessa mistura. Seja pelo barroquismo, pela valorização do arranjo como peça de composição, enfim, por elementos que descreverei com mais acuidade abaixo. E, principalmente, por razões geográficas, já que Pablo também vive e canta a partir das montanhas Gerais e das esquinas de Belo Horizonte. Por outro lado, seria imprudente dizer que Pablo é um arquétipo integral da atualização do conjunto de referências que envolve a estética “clubista”; até porque o próprio artista parece cauteloso ao evitar levantar tais bandeiras.

 

De todo modo, o legado do Clube da Esquina ajuda a identificar uma série de procedimentos que a música de Castro apresenta: a preocupação com o formato da canção popular (média de 4min, estrofes e refrões, trechos cantaroláveis, temas cotidianos, etc.); a abertura para influências estrangeiras (seja em temática, timbragem, conceitos, etc.); arranjos que, por vezes, funcionam quase que como composições dentro das composições; letras com um foco introspectivo e carregadas de simbolismos e metáforas; além de uma postura despojada do artista em relação à performance midiática, sem privilegiar figurinos, performances, e mantendo a música como peça privilegiada no spot.

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Em estúdio, gravando Anterior.

 

Além de compor seu repertório, Pablo está no centro das intricadas interpretações, costurando a teia sonora com seu violão de nylon e sua voz de timbre marcante. E se as influências do artista são mais familiares às décadas de 60 e 70, vale mencionar que sua banda de apoio no disco (composta por mais de 25 músicos, como Thiakov, Maurício Ribeiro, Bruno Santos e outros) tem um acento pop-rock com um vocabulário mais contemporâneo, e as levadas e timbres as vezes remetem a nomes como Radiohead. Por cima de tudo, algumas músicas contam com naipes de metais (como Moby Dick), e outras com cordas (como Anterior).

 

Essa massa sonora de músicos e arranjos é o que, para mim, mais aproxima Anterior do que poderia se chamar de neobarroco. Essa definição foi problematizada na brilhante resenha do Tulio Villaça, que também esboçou uma discussão sobre até quando o Clube da Esquina foi, de fato, barroco. Em uma entrevista que Tulio faz com Pablo, nesse mesmo link, eles discutem a influência do rock progressivo, estilo que, em alguns momentos, apresenta nuances que eu também vislumbro como barrocas (desde sutilezas, até os cravos virtuosísticos de Rick Wakeman, por exemplo). No caso do Pablo, vejo a relação entre barroco, Clube da Esquina e progressivo justamente na estrutura de arranjos, que não soam gratuitos em nenhum momento. Diferente dos improvisos jazzísticos ou de boa parte dos arranjos da música popular que funcionam como uma “cama” para as canções, os arranjos de Anterior tornam-se também canções, com fraseados próprios e bem arquitetados.

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O protagonismo dos arranjos, porém, não implica em dependência: através de diversos vídeos no you tube, Pablo Castro interpreta diversas canções apenas com voz e violão, deixando claro que as composições funcionam por si mesmas. Ao ter contato com o “esqueleto” dos seus temas, deixei de vê-los como neobarrocos, à despeito da sofisticação que ainda ostentam.

Além do mais, sua obra não se propõe como purista. Pablo lança seu olhar para diversos estilos, bem ao modo do antropofagismo tropicalista, distanciando de canções “redondas”, como standarts a la Cole Porter ou Gershwin. Suas composições, apesar de emularem o léxico de estilos variados, como o baião ou o samba, se valem sobretudo de amálgamas bem “beatlenianos”, e o fato das misturas soarem afinadas e integradas é prova da habilidade do autor. A marca composicional de Castro mostra sua força principalmente por manter uma unidade, apesar de tantos estilos, músicos e parceiros de criação. Sem contar que foi um disco gravado ao longo de vários anos. Se algo coeso foi capaz de resultar em meio a tudo isso, deve-se à qualidade do repertório e das interpretações.

 

O disco abre com Anterior, tema forte e original, desses que dão nó na cabeça pelos caminhos imprevisíveis percorridos pela letra, melodia, arranjos; e que consegue soar acessível ainda assim. Caminho Aberto é outra canção toda de Pablo, com sonoridade bem atual, enquanto Baião Nosso de Cada Dia surge com um tom acentuado de brasilidade. Essa é a primeira de cinco parcerias de Pablo com Luiz Henrique Garcia, parceiro mais presente no repertório do CD.

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Luiz Henrique Garcia

 

Se Anterior fosse um disco dos Beatles, as letras do Luiz Henrique poderiam ser consideradas como a porção “mcCartneyana” do trabalho. Seu olhar tem um enfoque mais objetivo, com ares de cronista, que remete a canções do ex-beatle como Penny Lane, London Town, e tantas outras. Ele versa sobre personagens (Moby Dick), histórias cotidianas (A Feira) ou imagens exóticas (Ponto Oriental), trazendo um variado e rico leque de referências. O lado mais “lennoniano” talvez fique pelas letras do próprio Pablo, partindo quase sempre de um ponto de vista individual e subjetivo, como na faixa-título, Interlúdio, e outras.

 

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Da esquerda para a direita: Makely, Kristoff e Pablo.

Kristoff Silva e Makely Ka, parceiros de Pablo no belo disco A Outra Cidade, também dão seu toque em duas faixas cada um: Kristoff na soturna e imprevisível O Grande Verão, e Makely no descontraído e épico Samba do Apocalipse. Os temas seguintes, O Sétimo Selo e O Fim do Mundo, revelam sua grandeza através de nuances mais tênues, até mesmo pelo menor número de músicos envolvidos e pela interpretação mais comedida. Elas formam um interessante contraste com a bombástica A Banda dos Descontentes, que fecha o trabalho. O tema (cujo nome remete à banda “anterior” de Pablo) apresenta um ótimo trabalho da banda e dos metais, e nos faz querer cantar a plenos pulmões quando chega o potente e intenso refrão.

 

É um disco inspirado, bem interpretado, que olha para a MPB de ontem e de hoje com reverência e respeito. Acima de tudo, é um disco honesto. Fosse em uma época onde a música brasileira da melhor qualidade era embalada e vendida da forma merecida, Anterior figuraria, sim, nas listas mais célebres. Porém, são tempos onde a mídia se rende a superficialidades, à figuras que não oferecem nada além de corpos perfeitos e polêmicas sazonais. Os bons trabalhos, porém, estão acima de modismos, e não se regem pelos mesmos parâmetros. Convido os leitores a pensar num futuro, em um momento posterior: Anterior ainda estará lá.

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Porque encontramos mais crianças criativas que adultos criativos?

Tudo se resume a um instinto universal – o medo. Crianças não desenvolveram ainda um senso de autopreservação como os adultos. Assim, da mesma forma que elas não temem enfiar o dedo em uma tomada, também não tem pudores de expor suas ideias. Elas não se importam se alguém vai considerá-las ridículas por dizer coisa alguma.

Não é possível ser criativo se você teme o sentimento de ser/parecer ridículo. Se você considera que existe arte perfeita alcançada sem dor e sem ridículo, devo te dizer que há um desvio bem perigoso na sua noção de realidade.

Para que Bach compusesse as músicas que hoje em dia ouvimos como peças perfeitas, ele teve que ser ridículo (mesmo que em seu quarto, em seu universo particular, sem ninguém olhando). Imagino o compositor envolvido na angústia, atormentado pela partitura incompleta e ainda inconsistente, longe de funcionar e de arrebatar corações, mas, apesar de tudo, insistindo em fazer malabares com as ideias.

E as crianças, estas nem mesmo lutam contra o ridículo, assim como fazem os artistas adultos: elas simplesmente o ignoram. Se você ri de uma criança porque ela acredita em papai noel ou em duendes, ela vai rir junto, além de praguejar que você, seu adulto ingrato, não vai ganhar presentes no próximo dezembro!

A questão é que esses pequenos risonhos estão no paraíso, e nós adultos, não mais (pelo menos na maior parte do tempo). Talvez por isso boa parte de nós zomba das fantasias infantis, e não sossegamos enquanto não convencermos as crianças de que o sentimento do ridículo é o maior obstáculo a ser evitado nessa vida. Não me fale de hormônios – é a nossa crueldade séria e austera em relação às crianças que as obriga a crescer.

E é tão curioso que esses adultos tão maduros e vividos possam fazer as coisas mais ridículas, caso haja dinheiro envolvido! Assim como as crianças acreditam em duendes, nós acreditamos em um pedaço de papel – com o qual nos prometeram que poderemos comprar casas na praia, iates, carros possantes; com o qual poderemos comprar a honra e o caráter dos outros.

E damos risada dos que criam, porque eles perdem o bom senso, dizem coisas impróprias, agem como loucos, zombam da moralidade! Veja o caderno de esboços de um escritor: é o caos! Páginas que parecem ser resultado de um surto! Se esquecem de que nem mesmo o nosso Deus cristão escapou do caos, essa força ridícula e insana que é matéria-prima de tudo que se cria. No início, “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Genesis 1.1-5). Tudo era uma bagunça. Só depois da confusão de gases e células, é que foi dito: “haja luz; e houve luz” (Genesis 1.1-5).

A atividade criativa é a força que nos suspende, para além do instinto de sobrevivência e do instinto de reprodução. Por isso ela é considerada inútil, e também é considerada ridícula. A atividade criativa não era como a pedra ou o fogo para o homem das cavernas. E tampouco ajudava na reprodução da espécie. Contudo, foi graças a ela que deixamos de ser homens das cavernas.

O Revolucionário humor de John Lennon

Há uns anos atrás, a proliferação do ideário “politicamente correto” tirou o sono de muitos humoristas. Agora, em um mundo pós-Charlie Hebdo, uma questão fundamental retorna à pauta: quais seriam os limites do humor? Tudo isso inspirou o presente ensaio, em que tento abordar a vida e a carreira de John Lennon, figura que, apesar de não ser propriamente um humorista, tinha o escárnio e o riso como ingredientes frequentes em sua matéria prima artística.

 

Entre os quatro Beatles, John sempre pareceu ser o mais hábil em destilar nas suas canções e performances amostras de um humor eficaz, ainda que muito ácido em diversos momentos. Paul McCartney sempre apresentou canções marcadas por uma leveza e um otimismo próprios, mas por mais brilhante compositor que fosse (e é), nunca teve o humor como elemento tão forte. George Harrison, por sua vez, compôs canções cujas letras revelaram grandes pérolas de sarcasmo e ironia, como Awaiting On You All, Sue Me Sue You Blues, Horse to the Water, etc. – mas todas essas só surgiriam anos depois do fim dos Beatles, em sua carreira solo. E Ringo era uma figura que tinha boas doses de humor em suas performances, ainda que de maneira involuntária.

 

john-john-lennon-19587533-342-500O alvo preferencial de Lennon era quase sempre ele próprio, projetado em várias letras que retratavam um eu-lírico nada heroico e muito menos idealizado. Quando decidia tirar sarro de mais alguém além de si, o beatle escolhia corajosamente os alvos das zombarias. Há ótimas canções fazendo troça de instituições políticas, militares, religiosas, da Rainha da Inglaterra, do presidente americano Richard Nixon, ou de célebres colegas músicos, como Bob Dylan e até mesmo o parceiro Paul McCartney. Por outro lado, ele poupava e até mesmo fazia uma inflamada defesa dos direitos das minorias representativas, como mulheres, negros, homossexuais, etc.

Controvérsias

Mas nem sempre foi assim. Na fase inicial dos Beatles, John não era tão politizado ou condescendente nas gracinhas. Em “Girl”, por exemplo, ele canta a letra principal, enquanto o coro das vozes de fundo cantarolam a palavra “tits” (seios) repetidas vezes. Uma sutileza, mas que carrega certa dose de machismo, e se soma a diversas histórias de bastidor que mostravam um jovem Lennon pouco atencioso com as necessidades das mulheres, tanto no aspecto pessoal (as mulheres com quem se relacionou, ou sua primeira esposa, Cynthia), quanto no coletivo (envolvendo direitos e demandas feministas). Ele só assumiria um posicionamento mais decididamente feminista depois de conhecer sua segunda esposa, Yoko Ono.

 

E se isso parece ofensivo, é importante lembrar que John executou episódios de humor ainda mais constrangedores e tacanhos. Nos primeiros shows da banda, um de seus recursos de palco preferidos era imitar deficientes físicos e pessoas com problemas mentais. Como revelado pelos outros três Beatles e por imagens antigas no documentário Anthology, John se contorcia em alguns momentos mais animados dos shows, entortava sua boca, mãos e pernas, arrancando risos dos seus colegas de banda e de parte da plateia, sem se importar se seria ofensivo para qualquer um dos presentes. Gracinhas como essas podem ser tomadas como amostras de um humor ingênuo, o que, por outro lado, não as tornam inofensivas.

Power and the People

Bp0l3wCCQAAuR5RApesar de alguns exemplos questionáveis, ao longo do tempo John sofisticaria seu estilo de humor, a começar por sua presença de palco. Em novembro de 1963, enquanto os Beatles tocavam em um show beneficente chamado Royal Variety Performance – cujos convidados de honra envolviam importantes figuras como a rainha Elizabeth I, a princesa, dentre outras celebridades –, Lennon diz para a plateia: “Para nosso último número, eu queria pedir a ajuda de vocês. As pessoas nos assentos baratos podem bater palmas. O resto de vocês pode sacudir as jóias”.

 

Fazer piadas de figuras e instituições ligadas a pessoas poderosas foi algo muito bem explorado por John em diversas ocasiões, como nas canções Cry Baby Cry (sobre a Rainha) ou em Sexy Sadie (sobre o líder religioso Maharishi Mahesh Yogi). E quando estoura a Guerra do Vietnã, John protagoniza outro bem-humorado episódio envolvendo a realeza. Em 1969, ele resolve devolver para a Rainha a MBE (medalha que o condecorava como Membro da Ordem do Império Britânico), e vai até o Palácio de Buckingham pessoalmente para fazê-lo, entregando também a seguinte carta: “Sua majestade, estou devolvendo minha MBE em protesto contra o envolvimento da Grã-Bretanha no lance Nigéria-Biafra, contra nosso apoio à guerra do Vietnã e contra a queda nas paradas de ‘Cold Turkey’. Com amor, John Lennon”.

 

Ainda em 69, depois de ser proclamado personalidade do ano pela revista Rolling Stone, alguns críticos resolveram fazer uma pilhéria com a postura de Lennon e Yoko a favor da paz, elegendo-o como “palhaço do ano”. E eis que ele responde no ato: “Parte da minha política e da Yoko é não sermos levados à sério. Somos humoristas. Todas as pessoas sérias, como Kennedy, Luther King e Gandhi, foram assassinados. Queremos ser os palhaços do mundo. Fico orgulhoso em ser ‘O Palhaço do Ano’ num mundo em que gente séria está se matando e destruindo em guerras como a do Vietnã”.

Yoko e John dando uma entrevista, em 1969.

Yoko e John dando uma entrevista, em 1969.

Trocadilhos

Desde o início dos Beatles, um dos mais interessantes recursos de humor utilizados por Lennon foi o de fazer trocadilhos com palavras e expressões populares. Isso pode ser notado em diversas de suas músicas, sobretudo na fase mais criativa e psicodélica dos Beatles, como Being for the Benefit of Mr. Kite, I Am the Walrus, Glass Onion, etc. Uma das suas principais inspirações para tanto foi o escritor Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos. Com Carroll, um hábil escritor na arte dos trocadilhos e jogos de palavras, John aprimorou sua veia lírica também nesta direção. Ao se aventurar na literatura em seus livros In His Own Write e A Spaniard in the Works, seus textos revelaram grande familiaridade em explorar as possibilidades sintáticas e semânticas das palavras (leia aqui um dos contos presentes no primeiro livro de John, traduzido para o português por Braulio Tavares).

 

lennon_2523005bAs habilidades “trocadilhescas” de Lennon podem ser detectadas já na grande ideia por trás do nome da banda – um trocadilho em que a palavra besouros (“beetles”) aparecia grafada com “a”, aludindo também à palavra “beat” (“ritmo”, ou dialogando também com o movimento beat, etc.). Apesar das referências do nome “Beatles” serem razoavelmente evidentes, as justificativas que John oferecia para criá-lo eram igualmente hilárias: em algumas entrevistas, ele teria dito que sonhou com um homem misterioso, carregando uma torta flamejante, e que lhe dizia em uma voz cavernosa “vocês serão ‘Beatles’ com ‘a’”. Até hoje, um mistério ronda esta versão. É possível ler a declaração da torta flamejante como uma zombaria do discurso messiânico familiar a tantos políticos ou religiosos. Contudo, muita gente, como Yoko Ono, defende que essa é a verdadeira história por trás do nome da banda. Seria um sonho místico e premonitório, ou foi o mundo que não entendeu a piada?

 

Quando pensamos nas implicações éticas do humor, o trocadilho emerge como um recurso muito interessante. Diferente da visão de que o melhor humor sempre deve ser ofensivo, os trocadilhos não envolvem a depreciação de pessoa alguma. De fato, essa ideia de um humor ofensivo surge da noção de que o humor é definido essencialmente como sendo trágico, e que sua eficácia é proporcional ao nível de calamidade sofrido por alguém. Mas há uma outra definição, que toma o humor como sendo, basicamente, uma ligação inesperada entre fatos diferentes – tal qual um elemento surpresa que surge dos conteúdos e dos significados. Penso que os trocadilhos parecem demonstrar que, em se tratando de humor, o caráter inesperado parece prevalecer em relação ao trágico.

The Niggers of the World

Sobre negros, mulheres e gays, que costumam ser alvos de humoristas apelativos e menos talentosos, Lennon até mesmo fez questão de interceder publicamente em relação a esses segmentos. Já no início dos Beatles, John defendeu o empresário da banda Brian Epstein, um homossexual atormentado que, a despeito de seu talento como administrador, acabaria morrendo por overdose de remédios para insônia.

 

lennon4-flag-ono_pgLogo depois da morte de Epstein, Lennon assume seu relacionamento com Yoko Ono, possivelmente a principal responsável por amplificar e contextualizar a visão humanística e pacifista que ele já possuía de forma latente e intuitiva. A postura politizada que o casal assume envolve também uma cumplicidade com demandas de setores menos privilegiados da sociedade. A partir daí, se intensificam as canções e declarações de John e Yoko defendendo os direitos das mulheres, negros, imigrantes, etc. Em seu controverso disco Some Time in New York City, de 1972, Lennon compõe músicas que são praticamente declarações suas a respeito de alguns desses temas, como Woman is the Nigger of the World – cujo título já, de cara, trata simultaneamente da questão das mulheres e dos negros. Duas pautas que surgem novamente em canções como “Angela”, sobre Angela Davis, uma militante comunista que fazia parte do partido dos Panteras Negras.

Lennon por Lennon

urlMas o alvo preferencial do humor “lennoniano” ao longo de toda sua carreira foi… ele mesmo. John soube, como ninguém, fazer chacota de si, e expor aspectos pouco glamorosos de sua própria personalidade. Em algumas canções, como Help ou Strawberry Fields Forever, sua abordagem intimista surgia mais tomada por angústia e nostalgia. Contudo, há diversas outras canções em que o beatle parecia rir de seus próprios podres, como sua constante preguiça (I’m Only Sleeping ou I’m so Tired), ou o fato de se sentir um perdedor (I’m a Loser), e até mesmo a perseguição pública que sofria por namorar uma estrangeira (The Ballad of John and Yoko, ou Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey).

 

Ao longo de sua vida e carreira, John Lennon sempre usou o humor para desmistificar quaisquer instituições e figuras cujo poder pudesse ser opressivo em alguma medida. E, com toda a parcimônia que pôde, utilizou essa desmistificação sobretudo em relação a si mesmo ou aos Beatles. Em boa parte das entrevistas que deu, ele tentou massacrar diversas tentativas de transformar-se em lenda. Jornalistas e fãs tentavam, a todo momento, tê-lo como um sujeito especial, quase que um totem, e ele viu no humor uma das maneiras pelas quais podia humanizar a si mesmo, destruindo o pedestal onde tantos insistiam em colocá-lo. Infelizmente, o brilhantismo da mensagem artística de John não chegou até um sujeito em especial, que, incapaz de compreender seu senso de humor, envolveu-se em uma sacralização fanática de Lennon, algo que custaria a vida do artista. Afinal, assim como existem no mundo os maus humoristas, também há os maus entendedores – mesmo quando se trata de algo tão direto e universal quanto as ideias que o ex-beatle cantou e praticou por toda a sua existência.

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Sobre Meritocracia

Comer, procriar, criar

O ser humano tem, basicamente, três impulsos fundamentais na vida:

1- sobrevivência,

2- reprodução,

3- criatividade.

Jean Baptiste Debret – Um Jantar Brasileiro, 1827.

É com a satisfação desta pirâmide que conseguimos encontrar algo que entendemos como felicidade. Com condições dignas de viver bem, ter comida na mesa e acesso aos serviços (1), uma família e um entorno de pessoas para conviver (2), e uma atividade que pode ser o ganha-pão (1, ou 1e3) ou algo apenas para satisfação pessoal (3).

Aí entra uma palavrinha mágica: qualificação. Eu encaixaria esta etapa no impulso 3, criatividade. Porque qualificar é criar um arcabouço de conhecimentos, é criar estruturas materiais ou imateriais. O conhecimento não é nada mais que uma estrutura mental capaz de amarrar informações soltas. Ao longo da qualificação, a pessoa precisa ter acesso a essas informações e, baseada na estrutura que lhe é comunicada, criar suas próprias estruturas.

O grande problema é que existe uma relação entre os três impulsos fundamentais, e uma dinâmica. A ordem de 1,2 e 3 não é aleatória. De fato, o 3 (criatividade) não pode vir antes do 1 (sobrevivência). O amor não paga as contas. Não se cria de barriga vazia.

Pobres e ricos

Pintura de Jules Bastien-LePage

Aí entra a questão das classes – econômicas, sociais, etc. Dizem que isso é papo de comunista. Bem, se você quer acreditar que o Bill Gates está em igualdade de condições em relação à Estamira, aí é por sua conta. Mas estou trabalhando com um raciocínio que considera as classes – e o abismo entre elas, sobretudo em países de terceiro mundo e emergentes como o Brasil.

Pois bem. A grande questão é que a sobrevivência é mais ou menos acessível, segundo a classe econômica em que a pessoa se insere. Uns dependem de todo o seu tempo livre para criar condições de sobrevivência, outros, de uma parte considerável dele, outros de ainda menos. Há os que tem muito tempo livre, e outros, pleno tempo livre.

Pré-conceitos

Ok, o raciocínio estava mais ou menos linear até aqui, e falávamos de questões ligadas ao impulso da sobrevivência (1). Vamos introduzir um ponto novo, algo bem familiar e facilmente reconhecível.

Esse aspecto oscila entre os impulsos 1 e 2 (sobrevivência e reprodução). Tem a ver com supertições, com tabus, com lugares-comuns, com frases feitas. Tem a ver com ideias meio tortas que se cristalizam nas sociedades, como ervas daninhas na história dos povos, germinando de leituras equivocadas do passado. Estou falando de preconceitos. São “pré” porque antecedem os conceitos, são pré-concebidos. Surgem antes do raciocínio. Assim, costumam ser ideias mais apaixonadas e menos racionais.

Cabem nessa “gaveta” dos preconceitos questões que envolvem: gênero (homens como sendo superiores às mulheres), raça (brancos como sendo superiores a negros/índios/pardos/etc.), idade (jovens como sendo superiores a velhos, ou o contrário), origem (pessoas do centro como sendo superiores as da margem), preferência sexual (heteros como sendo superiores a homos ou bis), e isso para ficar apenas em preconceitos universais.

Através das barreiras de preconceitos, as mobilidades dos corpos no espaço simbólico da sociedade não são mais as mesmas. Alguns símbolos são dados de bandeja para certas pessoas, enquanto outros símbolos são negados. Nem tudo é acessível. Assim como um emprego pode estar mais próximo de uma pessoa branca que de uma negra, o espaço da favela é mais acessível ao negro que ao branco. As barreiras são invisíveis, mas elas existem (e persistem) através do tal do preconceito.

É fácil negar o preconceito, talvez mais fácil que negar as barreiras materiais do dinheiro e das classes. Porque são calcadas em noções imateriais, sociais e culturais, que podem ser facilmente mascaradas pelo discurso politicamente correto e macio. Na prática e no cotidiano é que essas barreiras se revelam.

Cordialidade

Johann-Moritz Rugendas – Família de fazendeiros, 1825.

Acha que esses mecanismos são já algo muito complexo? Pior é que tem mais – e envolve o aspecto 2 (reprodução).

No caso do Brasil, há o que Sérgio Buarque de Holanda chama de homem cordial. Se você pensa que isso envolve esse lado receptivo e carinhoso do brasileiro, esqueça. É um pouco mais complicado entender o homem cordial, apesar de ser um fenômeno super presente na nossa vida tupiniquim.

Essa condição, supercomum no país por tempos imemoriais, foi conceitualizada pelo historiador em 1936, tornando-se um dos grandes ensaios conhecidos para entendermos características peculiares do brasileiro. Recomendo a leitura (presente no capítulo 5 do clássico livro Raízes do Brasil) para aprofundar.

Em uma definição rápida, envolve a visão do patrimônio público como sendo algo privado. Assim, há uma visão patrimonialista das coisas, onde relações íntimas substituem as relações profissionais. Um terreno fértil para que surjam as indicações, os nepotismos, os QIs, favorecimentos, e toda série de distorções do estado de direito, da máquina pública, do profissionalismo. O mérito é sutilmente substituído pelos “favorzinhos”, atalhos obscuros que não tem tanto a ver com esforço pessoal ou talento ou oportunidades igualitárias.

Meritocracia: onde? como? porque? para quem?

Manuel Dias de Oliveira – Alegoria ao nascimento de D. Maria da Glória, 1819.

Além do futebol, uma das maiores paixões do brasileiro são as novelas. Este é um elemento ligado ao impulso número 3 na escala das relações fundamentais, e talvez seja o entretenimento mais acessível aos brasileiros. Afinal, é barato e imediato (por isso, não interfere na sobrevivência – 1), é de fácil assimilação (dá para ver e comentar com a família – 2), e não interfere no horário de trabalho (dá pra ver depois do expediente, e dormir cedo pra trabalhar no dia seguinte – 1).

Lembram que falei lá em cima sobre a ordem dos impulsos? O de número 3 (criatividade) dependendo antes do 1 (sobrevivência) e do 2 (reprodução)?

Tudo isso para falar sobre meritocracia. No dicionário; “Meritocracia: (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e há uma predominância de valores associados à educação e à competência“. Ou seja: crer que a pessoa teve condições de conquistar algo e o fez por esforço próprio, podendo então receber o mérito por isso.

Voltemos com a ideia de criatividade como submissa às necessidades de sobrevivência e reprodução. Agora, pensemos que essas necessidades de sobrevivência e reprodução tem pesos e graus diferentes para classes diferentes (é mais difícil para um pobre sobreviver e constituir família que para um rico). Nesse caso, a meritocracia faria sentido? Se existem acessos maiores ou menores para a qualificação? E também os tabus e preconceitos? E, como se não bastasse, as relações pessoais no Brasil que podem assumir um lado pouco ético, a mercê dos “homens cordiais”?

“A Little Help from my Friends”

Vamos sair um pouco desse contexto brasileiro, e pensar na meritocracia por um viés mais universal.

Ao ler a biografia dos Beatles anos atrás, lembro de pensar que, se qualquer pessoa no entorno deles tivesse agido de forma um pouco diferente da que podemos acompanhar na história da banda, talvez eles hoje em dia fossem marinheiros velhos e bêbados nos cais de Liverpool, relembrando a juventude boêmia dos anos 60, amargando a escassez de dinheiro e fama.

Não adiantaria Lennon e McCartney serem ótimos compositores: se tia Mimi não comprasse um violão para John na adolescência, ou a mãe de George não incentivasse incondicionalmente o filho, ou se Brian Epstein não fosse um empresário tão visionário, ou se George Martin tivesse recusado os Beatles como os produtores da gravadora Decca fizeram alguns meses antes. Não teriam havido discos, nem shows, nem turnês, nem Yesterday; em suma, nada de Beatles como os conhecemos. E estamos falando da maior banda do mundo.

Sobre o amor

El Greco – São Paulo

O texto vai chegando ao fim, e deixo uma crença minha sobre essa questão do mérito e das oportunidades: a de que ninguém nesse mundo consegue avançar na vida se não houver amor. As ilhas são estáticas, e ser uma ilha é permanecer no mesmo lugar. Amar: dentro dessa palavrinha está contida a palavra “mar”, essa imensidão de água, sempre se movendo, avançando, retraindo, no ritmo do universo que se expande desde o big-bang. O ser pode ser ilha, e parar; ou então escolher dançar e mover, sendo mar (sem domar).

Como diz São Paulo na carta aos Coríntios, “sem amor eu nada seria”. Não basta o talento, ou a perseverança; há de ter amor por trás. Ou nada acontece.

Incomodado com a seca? Pois você PODE fazer algo para reverter.

A falta de chuvas está chegando a níveis críticos, e as causas pra isso são várias. Vai do crescimento do espaço urbano e da especulação imobiliária, passando pelo agronegócio, até a falta de políticas públicas que poderiam minimizar os danos, dentre outras razões.

Nesse contexto, o cidadão comum, com um raio de ação restrito em relação ao poderio de grandes empresas e políticos, poderia pensar que não pode fazer nada para reverter esse processo e zelar pelo meio ambiente.

Bem, pode sim: aderir a dieta VEGETARIANA (escrita em caixa alta para chocar os distraídos. Dizendo a mesma coisa de forma incisiva, seria: não se alimentar mais de carne).

se um vegetariano deixar seu chuveiro ligado por 24 horas, durante os 365 dias do ano, ele gastará MENOS água que alguém que se alimente de carne.

Abaixo, listo algumas informações para embasar tal afirmação (para os devotos do “bacon é vida” ou “f%$#-se os vegans”, mimimis serão ignorados. Como não fico apontando o dedo para o prato de ninguém, tenho liberdade para pedir respeito).

CONSUMO DESENFREADO DE TERRA: “De acordo com um estudo divulgado em 2011 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 62,2% dos 720 quilômetros de áreas desmatadas na floresta amazônica foram ocupados por pastagens. O mesmo cenário se repete em áreas da Mata Atlântica e de outros biomas essenciais para a biodiversidade brasileira a mundial”. (Fonte)

CONSUMO DESENFREADO DE ÁGUA: Com 15.500 litros de água, necessários para produzir um quilo de carne bovina, se produzem 12 quilos de trigo ou 118 quilos de cenoura. (Fonte).

Uma outra forma de acessar esse dado acima: se um vegetariano deixar seu chuveiro ligado por 24 horas, durante os 365 dias do ano, ele gastará MENOS água que alguém que se alimente de carne. (e aqui, me refiro apenas à água que o animal bebeu, sendo que há questões indiretas, como a água de irrigação da soja que ele comeu, a área de pasto que gera uma espécie de “tapete” que impede a água da chuva de atinjir os lençóis freáticos, etc.)

Daí um incauto diz: mas a maior parte das plantações é de soja? Então ele imagina que, se vegetarianos comem soja, logo, os vegetarianos são os grandes responsáveis pelo dano ambiental. Certo? Bem, ele só esqueceu de completar que quase toda essa soja é destinada a pecuária, ou seja, ela é plantada em larga escala para virar ração de gado. Na verdade, mais de 40% da produção global de diversos grãos, como soja, trigo, centeio, aveia e milho são destinados a alimentação de gado de corte. (Fonte)

Deixar de comer carne não é só modinha hipster, ou frescura, ou capricho. Pode ser preocupação com a saúde. Mas, acima de tudo, é uma ação efetiva a favor do meio-ambiente. Como naquela fábula do passarinho que pega um pouco d’água no seu pequenino bico, despejando-a no imenso incêndio que ameaça sua amada floresta (e claro que mencionar essa historinha aqui não tem nada de gratuito…).

Como matei Ray Bradbury

(publicado dia 28 de outubro de 2012 no meu antigo blog)

(baseado em fatos reais, e em uma dica de Pablo Gobira)

Antes de mais nada, devo contextualizar a questão para o juri. Dizem que o ABC da ficção científica era composto por Asimov, Bradbury e Clarke.

O A e o C já haviam batido as botas e se tornado lendas. Na noite do dia 05 de junho, o B era ainda a única divindade viva dentro do gênero. Ainda não era um deus ex-machina.

O mundo acreditava que Bradbury estivesse vivo – era o que estava escrito em enciclopédias e wikipedias. E estava, ainda. Quanto a mim, sequer sabia que ele era um deus da FC. Ou melhor, sabia de “ouvir falar”, mas não conhecia sua liturgia literária.

Na noite de 5 de junho, procurei informações sobre Bradbury no google. Porque? A faísca do interesse foi acesa por um livro do autor chamado O Zen e a Arte da Escrita.

Ao ler trechos dele, desinteressadamente, me peguei seduzido por seu enlevo. Basicamente, é um livro sobre as razões da escrita: porque e como fazê-la. O alto nível das considerações me faziam crer que Bradbury deveria ser, de fato, um autor instigante.Além de ser o grande ídolo de um dos meus escritores favoritos, Neil Gaiman.

O google, como sempre, me forneceu a ficha corrida do homem, e me surpreendeu não só que estivesse vivo, aos 91 anos, mas que também continuava em plena atividade literária. Realmente um deus da FC.

Eis que no dia 6 de junho, cheguei à rodoviária de Juiz de Fora, e com muito custo consegui achar uma passagem de ônibus disponível (véspera de feriado). Caminhando rumo à plataforma de embarque, dei de cara com uma notícia transmitida no telão central, inacreditável: morre Ray Bradbury.

Como podia ser? Tinha me interessado por ele meio que “do nada”, um dia antes! Fiquei em estado de choque. Seria uma falha na matrix?

Não sei se tenho culpa nessa história. Em minha defesa, alego a sincronicidade junguiana, a lei da atração, carma, e outros fenômenos que parecem ter saído de livros de ficção científica.

Se essa evidência não colar, vou ter que retroceder ainda mais no tempo. Acho que tudo começou há uns anos, quando ergui perigosos tótens (quais deles não seriam perigosos?). Depois de uma infância devotada aos heróis de quadrinhos e a todo tipo de ficção com elementos fantásticos, mágicos e extraordinários, eis que eu tinha sido picado pelo vírus do realismo.

Passei a gostar de uma literatura mais calcada no cotidiano, de cinema noir, quadrinhos adultos, e a repudiar coisas que se distanciassem muito disso. Talvez precisasse gostar de coisas sérias por estar me levando muito a sério, vá saber.

Com o tempo, esses tótens foram perdendo seu magnetismo, e me dei conta de que tanto o realismo quanto o absurdo dentro da ficção são feitos do mesmo barro. São diferentes só enquanto gênero, mas o caráter ilusório é tal e qual. Ambos só se tornam bem construídos e verosimilhantes quando o autor consegue amarrar bem sua trama. No fundo, eu tinha ficado “de pirraça” de muitos autores que poderiam ter tanto a me dizer.

Reconciliado com alguns ídolos da minha infância, novamente tratei de ampliar meu leque de leituras, e foi aí que o B do ABC foi aparecendo aos poucos pra mim. Primeiro quando li um artigo que tratava de escritores de ficção científica que transcenderam o gênero, munidos de perspicácia e de genuínos méritos literários. Bradbury era citado com louvor.

Meses depois, ao ler o livro de contos Coisas Frágeis, do britânico Neil Gaiman, me surpreendi ao vê-lo tecer infindáveis elogios a ele, e se referindo ao norte-americano como “um mestre da arte”. Por fim, eis que vivenciei o enigmático episódio do dia 05 de junho.
        
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Julgamento encerrado.

Agora é botar o leitor a par do veredicto. A promotoria entendeu que eu deveria ler Crônicas Marcianas para me redimir da absurda lacuna que arrastei durante anos. Para poupa-los do meu depoimento final, basta dizer que concordei com o júri sobre o grande valor da prosa bradburiana.

No presente momento, minha pena já se encontra cumprida. A leitura de cada uma das peças que compõem Crônicas Marcianas me fizeram refletir sobre o delito, e a constatar o quanto foi equivocado ignorar um escritor de tal calibre.  

Apesar dos pesares, percebo que foi inusitado e mágico ter me encantado pela primeira vez com um texto de Ray Bradbury talvez no exato momento em que ele se despedia do nosso planeta. E agora, enquanto ele provavelmente descansa numa sonda espacial ou em um universo paralelo, continuo a caça de Fahrenheit 451 e outras belezas.

Agamben e a Inoperosidade

[Como o acaso produz insights]

Deixei para ler hoje um texto que já tinha salvo em meu computador há alguns dias. É uma entrevista com o filósofo italiano Giorgio Agamben. Cada trecho das suas respostas tem um valor especial, de maneira tal que me parece impraticável destacar isso ou aquilo .

Só que, ao executar a tarefa cotidiana de “me perder” na timeline do face, me deparei com um link que produziu um diálogo imediato com uma das respostas que eu lera há pouco na entrevista. Trata-se de uma arquiteta grega que manipula objetos de uso doméstico, como regadores, garfos, pratos, etc, deturpando seus usos mas mantendo suas características.

O caráter de utilidade do objeto é esvaziado, fazendo dele uma peça de arte. Porque, afinal, a arte não é nada mais que descobrir as potencialidades da inutilidade; ver beleza em tudo aquilo que não envolve atividades de sobrevivência ou reprodução. Arte é dançar com vazios, brincar com lacunas e abismos.

Agamben conceitualiza isso como inoperosidade, algo que, a princípio, parece difícil de compreender, mas que as leituras vão revelando pouco a pouco, como nesse trecho:

“No mundo antigo, a existência estava ali – algo presente. Na liturgia cristã, o homem é o que ele deve ser e deve ser o que ele é. Hoje, não temos outra representação da realidade do que a operacional, o efetivo. Nós já não concebemos uma existência sem sentido”.

“O que não é eficaz – viável, governável – não é real. A próxima tarefa da filosofia é pensar em uma política e uma ética que são liberados dos conceitos do dever e da eficácia.”

O ser humano não pensa mais em si mesmo como sendo apenas humano. Ele é definido, em nossa sociedade, através de sua utilidade operacional: seu emprego, seu cargo, seu potencial de trabalho, sua mão de obra, seu salário, ou a etiqueta do seu terno, a marca do carro na garagem, ou pelo lustre da graxa em seu sapato.

A utilidade fala pelo humano, ainda que a utilidade sirva a outra finalidade: metas, planejamentos, cronogramas. Trocando em miúdos, Agamben diz que o homem tem sido confundido com seu currículo. A vida é substituída pelo “vitae”, signo arbitrário grafado no papel, e o diploma na parede se torna um altar do indivíduo consigo mesmo.

O filósofo é incitado pelo seu entrevistador à aprofundar essa ideia, e é citando essa resposta que encerro essa minha reflexão sobre novas formas de refletir sobre a não-atividade humana:
 
“A insistência no trabalho e na produção é uma maldição. A esquerda foi para o caminho errado quando adotou estas categorias, que estão no centro do capitalismo. Mas devemos especificar que inoperosidade, da forma como a concebo, não é nem inércia, nem uma marcha lenta”.

“Precisamos nos libertar do trabalho, em um sentido ativo – eu gosto muito da palavra em francês désoeuvrer. Esta é uma atividade que faz todas as tarefas sociais da economia, do direito e da religião inoperosas, libertando-os, assim, para outros usos possíveis. Precisamente por isso é apropriado para a humanidade: escrever um poema que escapa a função comunicativa da linguagem; ou falar ou dar um beijo, alterando, assim, a função da boca, que serve em primeiro lugar para comer”. 

“Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles perguntou a si mesmo se a humanidade tem uma tarefa. O trabalho do flautista é tocar a flauta, e o trabalho do sapateiro é fazer sapatos, mas há um trabalho do homem como tal? Ele então desenvolveu a sua hipótese segundo a qual o homem, talvez, nasce sem qualquer tarefa, mas ele logo abandona este estado”.

“No entanto, esta hipótese nos leva ao cerne do que é ser humano. O ser humano é o animal que não tem trabalho: ele não tem tarefa biológica, não tem uma função claramente prescrita. Só um ser poderoso tem a capacidade de não ser poderoso. O homem pode fazer tudo, mas não tem que fazer nada.”

O Réu e o Rei

Estou próximo de concluir a leitura de O Réu e o Rei, livro de Paulo César de Araújo publicado esse ano, mas já adianto: é completamente indispensável para fãs e sobretudo estudiosos da nossa música popular brasileira. Simplesmente não consigo parar de lê-lo.

Em suas mais de 500 páginas, o jornalista e professor aborda os bastidores de sua luta judicial com Roberto Carlos, sobre a famigerada biografia não-autorizada do cantor, publicada pela editora Planeta em 2007. O super bem escrito relato faz emergir personagens apresentados sem maniqueísmos, em toda a sua complexidade, episódios surreais típicos do pior aspecto da sociedade brasileira, e uma surpresa que me fez gargalhar em alto e bom som enquanto lia.

A trajetória é contada de maneira cronológica, e inevitavelmente Paulo César se coloca como personagem da trama. Ao iniciar a leitura, acreditei que os trechos de sua infância seriam aborrecidos de se ler, baseado em algumas biografias onde se anseia logo pela chegada dos episódios mais conhecidos. Mas logo percebi que o jornalista não só é meticuloso com os dados de suas pesquisas, mas também tem uma forma de escrita arrebatadora.

Aviso: só comece a ler o livro se tiver tempo livre, porque não dá pra parar (esse fim de semana chuvoso tem me ajudado na tarefa).

Não vou ficar falando dos detalhes tão pequenos dessa obra, mas já me adianto para um trecho que é sintomático de um traço lamentável do caráter nacional e da falência de nossas instituições na contemporaneidade.

É logo após a audiência de conciliação em que Roberto Carlos consegue a proibição da sua biografia (que até então almejara elogios quase unânimes de fãs, artistas e jornalistas Brasil afora). O juiz, que se revelara tendencioso a favor de Roberto por toda a audiência, espera a definição da sentença para declarar que é músico, enquanto entrega um CD seu ao Rei e pede para tirar fotos com ele. Ali, está representado o fisiologismo com que alguns membros de nossas instituições comprometem todo um aparato que, em tese, deveria ser imparcial e estar a serviço da justiça e dos interesses públicos.

Mas a grande surpresa desse livro é… João Gilberto! Todos os trechos que falam de João são simplesmente fantásticos, inacreditáveis, mágicos até! Me fizeram rir e me emocionar. Eu gastaria mais uns três textos desses para descrever!

Me limito a mencionar apenas um deles, quando Paulo César presencia o criador da bossa nova relatar a diferença entre o sapateado de diferentes tradições de dança, e não só explicar teoricamente esse dado, mas exibir na prática e com uma imprevisível elegância, que João domina muito mais do que a arte do canto e do violão.

Sobre Rubem Alves

Já perdi a conta de quantos emails recebi com textos de autorias completamente duvidosas, pastiches que teriam sido supostamente assinados por escritores, poetas e cronistas diversos. As piadas (mesmo aquelas com rudeza de botequim) atribuídas ao Veríssimo; os poemas de sentimentalismo a flor da pele seriam de Clarice ou Caio Fernando Abreu; as crônicas mais contundentes por Arnaldo Jabor, e por aí vai.

Mas não me recordo de ter recebido nenhum desses arremedos literários com a assinatura de Rubem Alves. Fico aqui especulando os motivos. Diferente de autores como Paulo Coelho, Alves era muito bem sucedido ao aliar elegância e simplicidade. Suas frases parecem as pinceladas de pintores experientes, que só depois de uma longa caminhada da alma e da técnica alcançam um traço de encantadora espontaneidade.

Enfim, não vejo como negativo essa história de uma obra literária apresentar ganchos e repetições que facilitem imitadores. Cada estilo é um mundo a parte, e funciona a seu modo. Veríssimo é inimitável, apesar de seu texto jocoso e (falsamente) acessível incitar os falsários a tentar. Rubem Alves talvez tenha sido poupado das clonagens devido à sua sobriedade e sua lucidez, aliadas também ao horizonte de leveza e beleza que mirava sempre.

O educador e filósofo é daquela qualidade de pensador que conseguiu ser acessível sem apelar a estereótipos. Tanto em sua postura de homem público quanto na essência de seus livros e declarações, a porção vaidosa de sua humanidade ficou em segundo plano, privilegiando sua mensagem de validade inexpirável. Rubem Alves flertou com a eternidade ainda em vida, e tornou-se universal para sempre.

Sobre Máscaras

Mais do que as experiências passageiras, como colônias de férias ou paqueras de verão, esses anos todos de vida universitária tiveram uma profunda influência na minha visão de mundo. Comecei a prestar mais atenção em alguns detalhes do cotidiano que eu ignorava, e, além de notar, tentar estabelecer conexões entre eles e uns tantos outros assuntos e ideias. Surgiu aí também uma chatice, de querer tornar complexo até mesmo fenômenos que nem sempre o são – efeitos colaterais de se pensar demais.
 
Passei a ter uma relação mais séria também com o que acontece fora das salas de aula. Um compromisso com as coisas boas da vida, e o desejo de cumprir as tarefas de maneira satisfatória, de ser presente quando é necessário.
 
Talvez eu tenha pago um preço por isso, na perda da espontaneidade de outrora, substituída por uma autoconsciência e uma definição do que me cabe ou não fazer. Lembro de Paul McCartney dizer, em uma entrevista, da diferença do Elvis Presley antes e depois do exército. Ao retornar a carreira, “the pelvis” parecia mais ensaiado, havia em seu olhar algo de hesitação, além da composição de um personagem que pudesse figurar bem nas fotos. Nada diferente das caretas e gestos exagerados do próprio Paul, hoje em dia – o que, dada a beleza da versão madura de McCartney, mostra que o processo não é tão negativo quanto parece.
 
Acho que, em certa medida, a vida adulta necessita de máscaras; mas se é para vestí-las, que sejam verdadeiras, que possam exprimir alguma verdade sobre nós mesmos. E, na verdade, a perda da espontaneidade de antes seria, não uma perda, mas apenas um eixo que precisa ser apertado novamente. O que é a vida senão um palhaço de quermesse, que equilibra os pratos girando sobre varetas, sorrindo?