Uma conversa entre páginas e telas

O que caracteriza um bom filme e uma boa história em quadrinhos? Quais filmes renderiam boas HQs, e vice-versa?

A TV é movida a emoção, enquanto quadrinhos são movidos a elaboração conceitual. Isso não quer dizer que a TV não possa ter conceitos legais ou que os quadrinhos não possam ter emoção. Mas é mais fácil alcançar emoção na TV porque você tem atores e trilha sonora, enquanto é mais fácil mostrar um conceito maneiro nos quadrinhos, já que quem lê controla o tempo enquanto lê. Assim, a pessoa pode parar e refletir sobre cada ideia que se apresenta, de um jeito que não dá em um programa de TV.

Eu peguei essa citação do roteirista Pornsak Pinchetshote diretamente da edição de semana passada da newsletter Virapágina, do tradutor e pesquisador Érico Assis, que trouxe uma reflexão muito interessante sobre as diferenças entre cinema (ou televisão) e quadrinhos.

Você provavelmente se lembra de ocasiões em que estava no cinema (ou assistindo a um filme em casa, com amigos) e, ao olhar para o lado, se deparou com pessoas rindo alto ou chorando. Mas quantas vezes você viu alguém reagindo da mesma forma enquanto lia uma história em quadrinhos? Ainda que, como Pornsak diz, possam existir exceções entre espectadores e leitores, o tipo de padrão que ele menciona faz todo o sentido.

Te convido a assinar a newsletter Além da Letra, para receber novos textos por email e apoiar meu trabalho.

Para contribuir com esse debate, me peguei pensando se não existiriam alguns filmes que, por sua natureza conceitual ou metaficcional, renderiam bons quadrinhos – ou o contrário: quadrinhos que, por seu potencial de emocionar e tocar corações, poderiam se tornar filmes muito especiais. A partir dessa premissa, fiz aqui uma singela lista de obras com alto potencial “adaptável”.

Começando pelo cinema que renderia boa HQ: penso de cara em Waking Life (2001), de Richard Linklater. Nesse caso, não temos nem dificuldade de imaginar o tipo de traço que o desenhista poderia adotar. Afinal, o filme é todo feito na técnica de rotoscopia – onde são feitos desenhos em cima de filmagens, quadro a quadro. O resultado é um tipo de animação realista; e parece, na verdade, com um quadrinho em movimento. Como se não bastasse, além desse aspecto visual, Waking Life tem um roteiro repleto de discussões existenciais e filosóficas, que as vezes te fazem querer pausar cada cena para ficar pensando a respeito – algo que seria mais natural e fluido se fosse apresentado no formato de uma graphic novel.

Por sua vez, as HQs do japonês Jiro Taniguchi renderiam filmes muito tocantes. Se você assistiu Dias Perfeitos (2023), do alemão Wim Wenders, pense que aquele tipo de narrativa e de estética se assemelha bastante com o estilo de Taniguchi nos quadrinhos – não seria exagero pensar que Wenders leu O Homem que Passeia (1990) antes de produzir seu filme. As duas obras se valem da fotografia panorâmica de bairros da classe trabalhadora japonesa, representações do cotidiano pelo olhar de um protagonista flaneur, e uma dose considerável daquilo que chamam de slice of life – que é quando uma narrativa se detém em pequenos detalhes da vida comum.

Outro filme que renderia uma boa HQ é Ponto de Mutação (1990), baseado no livro de mesmo nome de Fritjop Capra. Na obra, três personagens – um político, um poeta e uma cientista – passam uma tarde caminhando por um antigo castelo em Mont Saint Michel, no litoral da França. O trio discute temas variados, como a teoria da relatividade de Einstein, o cartesianismo, ecologia, física quântica, espiritualidade, etc. Cada um deles argumenta a partir de sua específica área de atuação, resultando em uma conversa profunda e inspiradora. Apesar do baixo orçamento, o filme ficou conhecido sobretudo por seu roteiro instigante; mas não podemos deixar que, na mão de um bom autor de quadrinhos, a história poderia realmente mexer com as cabeças dos leitores.

Para encerrar esse exercício de imaginação intermidiática, apresento a HQ que é minha candidata favorita a uma possível adaptação para o cinema: Regresso ao Éden, publicada no Brasil pela Devir em 2022. Escrita e desenhada pelo espanhol Paco Roca, essa obra foi eleita por vários críticos como sendo o melhor quadrinho de 2020. Não li tantos quadrinhos publicados no mesmo ano para poder comparar, mas talvez tenha sido a leitura de HQ mais emocionante que já fiz (na verdade, antes de ler Regresso ao Éden, eu nunca tinha chorado lendo um quadrinho).

Nessa obra, Roca apresenta duas narrativas em paralelo: uma pessoal (a história da sua mãe) e outra coletiva (o contexto da ditadura franquista na primeira metade do século XX). Seja pelo tema sensível, aliado a um senso histórico notável e um manejo de mestre com as possibilidades gráficas e narrativas dos quadrinhos, o resultado acabou por render uma verdadeira obra prima. Assim, fico pensando que, se essa graphic novel for adaptada decentemente para o cinema – com um bom elenco, uma boa trilha sonora, e uma direção adequada –, certamente estaríamos diante de um filme inesquecível e atemporal.

E quais outras obras vocês acham que poderiam render boas transposições de uma mídia para outra? Fiquem à vontade para compartilhar suas opiniões.

Aproveito também para agradecer as leituras e o apoio de vocês ao longo de 2024. Foi uma enorme alegria poder trocar ideias e experiências com tantas pessoas através dessa newsletter. Um forte abraço e boas festas para todos!

Agradeço a leitura dessa edição de Além da Letra! Se gostou, te convido a dar um like e compartilhar com seus amigos.

Partilhar

Phil Collins, o baterista

Documentário registra o auge e a decadência de um dos músicos mais amados do pop

O Drumeo é uma plataforma online especializada em cursos e serviços sobre bateria (o instrumento musical de percussão, para ser mais exato), e consiste em uma verdadeira comunidade global de apoio para alunos e professores. Em seu canal do You Tube, eles têm investido na produção de conteúdo sobre bateria, com vídeos informativos, entrevistas, e até mesmo documentários.

No dia 18 de dezembro de 2024, o Drumeo lançou sua produção talvez mais ambiciosa – um documentário chamado Phil Collins: Drummer First. O título é autoexplicativo, ou seja, diante da vasta carreira do músico e compositor inglês Phil Collins, o filme traz ênfase para sua notável contribuição no mundo da bateria. Somando duas horas de conteúdo, a obra conta com o filho de Phil, Nic Collins, como um dos produtores.

Fique a vontade para dar um “like” ou compartilhar esse texto, e eu te agradeço por isso.

Partilhar

Apesar de iniciar uma carreira promissora como ator teatral em meados dos anos 1960, o jovem Phil Collins decidiu na época que seu futuro artístico era nos bancos de uma bateria. Depois de passar por grupos semi-amadores como Flaming Youth, em 1970 ele ingressa como baterista da banda britânica Genesis. Após a saída do vocalista Peter Gabriel, em 1975, Collins torna-se vocalista do Genesis. Em 1981, lança seu primeiro disco solo, Face Value, e a partir dali vai se tornando cada vez mais onipresente nas rádios do mundo todo. E não é exagero dizer que Phil ajudou a inventar o som de bateria característico dos anos 80.

Mesmo com tantas glórias, problemas pessoais ou de saúde impediram Collins de ter o mesmo nível de produção de nomes como Paul McCartney ou Bruce Springsteen. Phil já vinha reduzindo seu ritmo ao longo do século XXI (seu último material inédito é o disco Testify, de 2002), e acabou por anunciar sua aposentadoria em 2022. Entretanto, seus discos e performances continuam a ser celebrados por várias gerações de ouvintes.

A questão é que todas as conquistas de Collins enquanto artista solo e vocalista do Genesis acabaram por eclipsar sua enorme contribuição enquanto baterista. Para além dos trabalhos que lhe deram fama, Phil produziu e tocou em ótimos discos de diversos artistas. Em paralelo ao Genesis, por exemplo, o músico inglês foi o baterista de um excelente grupo de jazz fusion chamado Brand X – e seus arranjos de bateria em discos como Unorthodox Behaviour (1976) são fora de série. Além disso, Phil já tocou em álbuns de Eric Clapton, Peter Gabriel, Robert Plant, Peter Banks e uma lista enorme de outros nomes (incluindo uma performance com o Led Zeppelin, essa infelizmente memorável pelos piores motivos).

Um dos aspectos mais legais do documentário da Drumeo é o de incluir apenas as trilhas isoladas de bateria das músicas citadas (interpretadas pelo filho de Phil, Nic). Isso não apenas destaca o notável arranjo de Collins nessas canções, mas também mostra o quão reconhecíveis são essas levadas e viradas. Rapidamente sabemos de quais músicas se tratam, ainda que todos os elementos melódicos tenham sido suprimidos.

Em paralelo a essas trilhas de bateria, ouvimos depoimentos emocionados de mestres do instrumento como Chad Smith (Red Hot Chili Peppers), Mike Portnoy (Dream Theater), Billy Cobham (Mahavishnu Orchestra), dentre outros. Diversos convidados se dedicam a comentar a qualidade dos arranjos e grooves de Collins, incluindo suas viradas antológicas “cantaroláveis” (detalhe: “virada” de bateria, em inglês, traduz-se como fill, o que rende trocadilhos hilários no fim do filme). Apenas pense que uma das viradas mais famosas do pop foi gravada (de improviso!) por Phil em In The Air Tonight!

Faça um teste, e ouça “Here We’ll Stay”, single gravado por Frida Lyngstad – uma das eternas cantoras do ABBA. A canção fez muito sucesso quando saiu, em 1982, mas é pouco lembrada hoje em dia. Pois bem, ouça apenas a sua introdução, e repare nos arranjos de bateria. Como disse um dos comentaristas de Drummer First, a assinatura sonora do timbre e da levada faz com que possamos reconhecer já nos primeiros minutos dessa música que o baterista é Phil Collins (que foi também o produtor do terceiro disco de Frida, Something’s Going On).

O documentário não chega a ser propriamente biográfico, apesar de vasculhar várias fases da vida de Collins, mas cumpre o seu propósito, que é tentar fazer justiça à sua faceta de baterista. Como sua carreira solo obteve um sucesso gigantesco, sua contribuição para o instrumento não é tão valorizada. Na verdade, é difícil pensar que aquele rapaz baixinho e careca cantando baladas açucaradas como Against All Odds ou One More Night foi um dos grandes bateristas da história do rock.

Apesar da importância por trás do filme da Drumeo, dois problemas me incomodaram um pouco quando assisti. O primeiro deles envolve a absurda ausência de Chester Thompson – que dividiu as baterias do Genesis com Phil nas performances ao vivo entre 1977 e 2007. Além disso, Chester tocou em quase todas as turnês de Phil em carreira solo. Foi na última turnê solo de Phil (Not Dead Yet Tour: 2017 a 2019) e na última turnê do Genesis (The Last Domino: 2020 a 2022) que Nic Collins substituiu o antigo baterista.

Em uma entrevista de fevereiro de 2021 publicada pela Revista Rolling Stone, Thompson revelou que ele e Collins tiveram desavenças na turnê Going Back, de 2010. Chester acreditou que, por se tratar de um repertório baseado em covers do catálogo da gravadora Motown, saberia tudo de cor. O que ele não contava é que Collins fez diversas mudanças nas canções – e o que ele não sabia é que, nos bastidores, Phil lidava com as consequências de um doloroso divórcio, além de depressão e alcoolismo. Os dois brigaram feio, e, de acordo com essa entrevista, a parceria bem sucedida de décadas entre Phil e Chester terminou com a demissão desse último, e com o consequente fim da amizade entre essas lendas da bateria. O documentário seria uma ótima oportunidade para honrarem seu legado juntos, mas acabou não acontecendo.

O outro problema do filme é menos grave (e até compreensível), envolvendo a narrativa em torno da atual condição de Collins. Qualquer fã ou admirador do músico vai se emocionar ao ver o músico caminhando lentamente com a ajuda de uma bengala, incapaz até mesmo de realizar simples viradas ao se sentar diante da bateria. Para Nic Collins, a falta de ergonomia do antigo kit Gretsch usado por seu pai é o motivo pelo qual Phil está nesse estado.

Essa é uma verdade parcial, eu diria. Hoje em dia, os fabricantes de equipamentos e instrumentos são bem mais atentos à questões de ergonomia, de fato. Mas o caso de Phil Collins tem a ver tanto com seu temperamento workaholic (em 1985, o músico entrou para o Livro dos Recordes Guinness por fazer dois shows em dois continentes num único dia!) quanto com sua negligência em cuidar da própria saúde (nesse sentido, a narrativa do próprio Collins ao escrever a autobiografia Not Dead Yet contradiz o documentário do Drumeo).

Em 2007, na turnê de retorno do Genesis, Phil deslocou algumas vértebras tocando bateria, e teve que se submeter à inúmeras cirurgias (mal sucedidas, infelizmente). No documentário Come Rain or Shine, de 2007, o músico Daryl Strummer (que desde 1978 toca ao vivo com o Genesis e com Phil Collins solo) deu declarações que deixam implícito como Phil não se preparou fisicamente para a turnê. Aparentemente, depois de anos sem tocar bateria, Collins (na época com 56 anos) resolveu reproduzir os intricados arranjos das canções do Genesis sem se atentar ao seu condicionamento físico ou à falta de prática com o instrumento.

Além disso, de acordo com a autobiografia do músico, o problema do pé caído (que o obriga a andar de bengala hoje em dia) foi fruto de uma queda no palco nos anos 1980. Apesar de ter sido algo grave na ocasião, Collins nunca se preocupou em ir ao médico ou fazer exames, até descobrir em meados de 2010 que o dano ósseo dessa queda piorou ao longo dos anos, chegando infelizmente a um ponto irreversível. Por fim, após o divórcio com (sua terceira esposa) Orianne Cevey em 2006, Phil começou a beber, e seu crescente alcoolismo lhe rendeu problemas como diabetes tipo 2 e pancreatite. Ao produzir Drummer First, Nic Collins optou por omitir esses problemas e interpretar a decadência física de seu pai como um efeito colateral de tantos anos dedicados a tocar bateria.

Enfim, apesar de algumas lacunas e imprecisões factuais, a maneira como a narrativa foi organizada visa, sobretudo, evocar uma bem vinda dignidade ao lendário músico em sua retrospectiva da carreira. O fato é que esse documentário da Drumeo consegue fazer justiça aos méritos de Phil Collins como baterista, honrando sua enorme contribuição ao instrumento. O filme pode ser assistido gratuitamente no You Tube, e é uma experiência altamente recomendável para todos os amantes de rock progressivo e pop.

Agradeço a leitura dessa edição de Além da Letra! Se te interessar, deixo o convite para que assine a newsletter e receba novos textos por email.

Passatempo ou Produtividade?

A batalha pelo nosso tempo livre

1.

Se dedicar a uma atividade que parece fazer o tempo parar. Você olha para o relógio, e muitas horas transcorreram sem que você se desse conta. Um tempo em que você foi capaz de esquecer até de si mesmo.

Isso já aconteceu na sua vida? É algo frequente, ou é um fenômeno raro? No geral, você é daquelas pessoas que sentem um nó na garganta nos domingos, sabendo que a segunda feira está prestes a chegar? Ou você vive com entusiasmo em todos os dias da semana?

É possível sentir entusiasmo por tudo? Ver cada tarefa da vida como se fosse apenas um passatempo?

2.

Passatempo: substantivo composto, mesclando o verbo “passar” e a palavra “tempo”. Dois radicais que, ao serem combinados, adquirem novo valor semântico.

É uma versão própria para o português do estrangeirismo hobby. Que deriva do termo inglês hobyn (pequeno cavalo, pônei), e resume uma expressão usada na Inglaterra do Século XVI: hobby horse – um cavalo de madeira usado pelas crianças nos momentos de lazer.

3.

O novo texto da newsletter da Vanessa Guedes parte do conto “Sensação de Poder” (de Isaac Asimov) para discutir questões sobre inteligência artificial, perda da curiosidade e cansaço cognitivo. Ao longo do texto, Vanessa aborda a neurose coletiva que nos faz levar a questão da produtividade para nossos momentos de lazer. É um texto abrangente, que busca entender como somos impelidos a quantificar e exibir até mesmo nossos instantes privados, tentando ainda alcançar algum tipo de métrica de desempenho exigida socialmente. Vejam esse trecho:

No conto do Asimov, fazer contas era um passatempo para o homem que (re)ensinou aos outros a calcular. É emblemático usar o termo “passatempo” aqui, parece uma palavra arcaica, quase sem sentido. Quem desfruta tranquilamente de passatempos? Algo assim, sem compromisso nenhum, que não se faça pensando na hora de postar o resultado final? É difícil generalizar o passatempo mais comum das pessoas hoje, não consigo pensar em nada muito elaborado. Games, doomscrolling?

4.

Coincidentemente, eu tinha assistido um vídeo horas antes de ler o texto da Vanessa, e ele tratava de um tema parecido. O autor é um mestre espiritual brasileiro, um professor de ioga chamado Sri Prem Baba.

Ele discutia os benefícios da respiração e da meditação para a cura interior, visando despertar a consciência do indivíduo sobre o sofrimento do próprio corpo. Esse método representa uma jornada de autotransformação que, por trazer perspectivas mais profundas sobre sua própria finitude material, te leva a não querer perder tempo precioso com distrações frívolas do mundo exterior. Destaquei aqui um trecho:

(Com a respiração consciente e a meditação) você deixa de reclamar, de se vitimizar. Você não se distrai mais com os desafios, você os aceita, e entende que são os efeitos especiais da jornada. Mas segue firme no seu propósito de sustentar essa conexão e de seguir vendo Deus em todos, amar a todos, servir a todos.

E quando você estabelece essa unidade com o divino, o próprio fazer no mundo se torna um passatempo (risos). Como a gente gosta de passar o tempo? Eu por exemplo gosto de cantar. (…) A gente dança, canta. Aprecia profundamente o silêncio.

5.

Um amigo montou um canal na internet para transmitir ao vivo a tela de seu videogame. Ele liga o jogo Fifa no seu Playstation 5 no horário marcado, e subitamente milhares de pessoas se conectam para assisti-lo jogar. Mais inusitado do que constatar que existe um público disposto a te ver jogar videogame é perceber que você pode ganhar dinheiro com esse tipo de transmissão.

6.

Quando alguém se dedica a um passatempo, o principal objetivo envolve realmente fazer jus ao significado da expressão: ver o tempo passar rapidamente, escoar – o tal estado de flow que está tão na moda nas redes sociais. Trata-se de uma atualização do termo “estado de fluxo”, cunhado pelo psicólogo húngaro-americano Mihaly Csikszentmihalyi.

Na física quântica, há quem se refira à essa condição como estado de “não-tempo”, que é quando a pessoa nem nota o tempo passar. A teoria da relatividade de Einstein trata justamente de como a sensação de tempo depende do referencial – o mesmo fenômeno que a mecânica quântica apurou no famoso experimento da dupla fenda.

Entretanto, o que notamos de maneira mais presente na nossa sociedade é uma urgência que, ao invés de levar à dissolução do tempo, faz com que as pessoas não vivam suas próprias vidas, fugindo do tédio e, em última análise, de si mesmas.

https://youtu.be/kwxyT5n6E9o):

Vejam essa citação da psicóloga Maria Rita Kehl (retirada de uma palestra dada ao Café Filosófico chamada Aceleração e Depressão):

(…) Tem uma frase de um paciente que usei como epígrafe (em um) livro. Ele diz assim: “nossa, eu percebo que eu vivo assim: vamos andar logo com isso, para acabar logo, para ir pra casa logo, para dormir logo, para acordar logo, para começar a trabalhar logo, para ir dormir logo, para viver logo, para morrer logo”.

Maria Rita prossegue analisando que, obviamente, você vai morrer na idade que tiver que morrer, mas que a sensação de morrer logo resume, na verdade, o anseio de correr achando que se vai chegar em algum lugar. Quando o resultado disso, desse correr intermitente, é apenas chegar na morte mais depressa – ou com a sensação de não ter apreciado cada momento da vida.

7.

A visão de “passatempo” proposta pelas tradições orientais (como o ioga, o taoísmo, o budismo e outras) não envolve a fuga do tédio, mas a aceitação do tédio. Abraçar a vida de maneira irrestrita. Se uma pessoa se torna capaz de amar profundamente a si mesma, de se perdoar e se aceitar em profundidade, ela será capaz também de desfrutar de cada instante nessa vida, nesse planeta.

O paradoxo aqui é que, se você aceita cada instante com genuíno amor, a sensação de continuidade linear do tempo se dilui. Ao manter sua consciência plenamente presente, no “agora”, a impressão é a de que se interrompe a contagem do tempo.

Como quando o mestre espiritual indiano Sadguru relatou que, ao alcançar o estado de samadhi (iluminação), aos 25 anos de idade, ele se sentou sob uma árvore acreditando que tinham se passado algumas horas; entretanto, as pessoas que o observavam relataram ter se passado treze dias desde que o jovem iniciou sua meditação naquele mesmo local.

8.

A dedicação que um monge ou um buscador espiritual dedicam ao estado de samadhi pode parecer muito distante do que podemos vivenciar em nossos estilos de vida no Ocidente. Mas cada vez mais cresce no mundo contemporâneo o interesse pelas práticas de mindfulness, que seriam adaptações secularizadas voltadas para contextos médicos e psicológicos. Trata-se de uma prática baseada em evidências, que se encaixa tanto para ambientes laicos e ateus quanto devocionais e espiritualizados.

9.

Existem várias maneiras de passar o tempo. Na internet, chama-se de timeline aquela tela inicial das redes sociais onde as postagens quase infinitas se desenrolam para o internauta.

Temos a responsabilidade de dizer se vamos delegar a passagem da nossa linha do tempo à algoritmos e curadores externos. Ou se preferimos encarar a responsabilidade por nossas próprias decisões e o uso do nosso tempo.

Agradeço a leitura dessa edição de Além da Letra – Rafael Senra! Se puder, deixe um like (coraçãozinho), ou recomende para um amigo. Abraço e tudo de bom!

Aforismos sobre a morte

Ideias mais ou menos encadeadas e uma história pessoal

Meados de 2001; uma das primeiras vezes em que eu entrava num estúdio de gravação musical. Sala lotada, muita gente conversando coisas técnicas sobre microfones, afinação do violão, ruído do sinal, blablabla. Até que alguém diz “ele morreu!”. Subitamente, todos se esquecem do que estavam a fazer, tomados (no mínimo) pela curiosidade com a identidade do dito cujo que partiu dessa para a melhor. Nem um relâmpago teria gerado efeito parecido.

O mais engraçado é que, hoje em dia, nem lembro do nome do falecido. Só me recordo do efeito que a palavra “morte” causou entre as pessoas ali presentes.

*

Nós, humanos, não trazemos de fábrica dispositivos internos que nos permitam lidar com a morte de um modo ameno ou pacífico. Por isso, inventamos dispositivos externos físicos e simbólicos: rituais fúnebres, simpatias, unguentos, cemitérios.

*

A morte de um ente querido é sempre um vendaval no íntimo. Conversando esses dias com o amigo Kadu Mauad, ele disse que, de acordo com alguns neurocientistas, nossa psique interpreta um parente ou um amigo próximo como se fossem espaços de segurança. Mais do que pessoas queridas, são esteios da nossa própria vida.

*

Quando alguém próximo morre, nós morremos junto – no sentido que precisamos renascer em nossos hábitos e nossas percepções de mundo. Nada será como antes, hoje ou amanhã. O luto não é apenas pelo ente que partiu, mas pelo modelo de vida que perdemos para sempre.

*

A consciência da morte não é privilégio apenas de seres humanos. Elefantes, por exemplo, tem o hábito de inspecionar corpos de membros falecidos, carregá-los ou cobri-los com galhos e terra – no que parece ser um tipo de luto. Há registros de primatas que carregam os corpos de seus filhotes mortos por dias ou semanas, como se tivessem dificuldade em aceitar a perda, e comportamentos semelhantes já foram detectados entre baleias e golfinhos. Além disso, é comum ouvir histórias de cachorros que param de se alimentar diante da ausência do dono, ou gatos que fogem de casa após notar que seu tutor não se encontra mais naquele local. É difícil saber se tudo isso significa uma mera reação pela ausência física de alguém, ou se são realmente manifestações de luto no reino animal.

*

Humanos têm a faculdade da memória como uma simultânea bênção e maldição. Por mais que o sistema queira vender seus cursos de leitura dinâmica ou memorização sofisticada, sabemos que, muitas vezes, o grande alívio está em se esquecer das coisas.

*

Dizem que uma das coisas mais duras sobre envelhecer é acompanhar o falecimento de pessoas do seu entorno. Dói ainda mais quando você perde alguém que esteve por perto durante toda a sua vida. Porque a presença daquela pessoa era sinônimo da vida mesma.

Desde seus primeiros anos, você aprendeu que a cor do céu durante o dia é azul, que o sol está sempre a brilhar, que precisamos beber água, e que aquela pessoa do seu lado é uma pessoa de carne e osso. Perder um ente querido que você conhece por toda a vida é como ver o sol se apagar. Parece uma traição da natureza.

*

Minha prima Renata está agora em outro plano de existência. Tentar encontrar uma síntese para esse tipo de perda é tarefa árdua. O sentimento é o de ver seus braços e pernas amarrados em lugares diferentes, e você tenta exercer sozinho uma força centrípeta forçando cada vetor para o centro, buscando de maneira forçada um equilíbrio que parece irrecuperável.

*

Tenho tantas memórias da Renata que seria possível escrever um livro. Não seria uma biografia dela, mas sim um relato afetivo de alguém com quem você teve a honra e a alegria de conviver.

É como observar pela janela. Você não tem a paisagem completa, só um índice dela. Contudo, apesar de ser um recorte de algo maior, o que você vê já é um mundo.

*

Em um dia do século passado, quando éramos adolescentes, o amigo Filipe Jiló ligou para a casa dos meus pais e me convidou para testar sua mais nova aquisição: um telescópio. Naquele dia ensolarado, enxergar estrelas estava obviamente fora de cogitação. Mas os jovens são ansiosos, e, na falta dos astros celestes, fomos observar a cidade de Congonhas.

Subimos para a Praça Bandeirantes, e de lá chegamos no Cruzeiro, que é uma espécie de mirante dentro da cidade, de onde se abre uma vista majestosa de Congonhas. De lá, apontamos o telescópio para casas, avenidas, e era vibrante poder enxergar detalhes tão minuciosos assim de longe, bancando os voyeurs de nossos conterrâneos.

Dali, caminhamos para um outro ponto ainda geograficamente elevado: a Igreja Bom Jesus de Matosinhos, o grande cartão postal de nossa cidade natal, onde está um dos mais significativos acervos de Aleijadinho, com as estátuas dos doze profetas, o adro e seu conjunto arquitetônico barroco. Eu e Filipe nos sentamos no platô de uma das capelas, logo abaixo da Igreja.

Até que avistei a parte de trás da casa da Renata, localizada a quilômetros de distância. Tive a ideia de ligar para ela do meu nokia 3210 (um modelo ancestral de telefone celular que, em vez de câmeras e aplicativos, apenas ligava e enviava SMS de texto – com taxas absurdas). Quando minha prima atendeu, eu disse: “Rê, vou te pedir uma coisa muito louca. Se você puder, vá para a janela da parte de trás da sua casa, a janela do quarto dos seus pais”.

Lembro vividamente da emoção de avistar na lente do telescópio o momento em que Renata apareceu na janela do segundo andar. Hoje em dia, acostumados que estamos com videochamadas e reuniões remotas, é difícil traduzir o encanto de ligar para alguém de longe e poder obter uma imagem da pessoa no meio da conversa.

Então, me sentindo um mágico como o Mister M, eu disse: “você está com uma blusa branca, não está?”. Ela arregalou os olhos, e disse “como você sabe??”. “É que eu estou na basílica, com um telescópio”, respondi. Atônita, ela caiu na gargalhada. Ela então fez alguns sinais com as mãos, e sorriu quando me ouviu adivinhar cada um deles.

No meu arquivo afetivo de lembranças relacionadas à Renata, essa é uma das que considero mais singelas e poéticas.

*

Um mundo de telefones que apenas faziam ligações, de internet discada, um mundo de presenças. As angústias e alegrias eram outras. Esse é um mundo que morreu. É curioso como somos capazes de viver muitas vidas em uma única vida.

*

O século XXI tem tecnologias sofisticadas, mas os telefones hiperconectados de agora não permitem que eu ligue para minha prima. Não há telescópio que me permita vê-la novamente.

*

Muito antes dos telefones, dos telescópios, bússolas, astrolábios, e antes que inventássemos a roda, nós possuíamos dispositivos natos: Memória. Coração.

Muitas tecnologias morreram e renasceram ao longo dos séculos. Algumas surgiram da paixão de artesões e alquimistas. Outras precisaram receber subsídio do governo norte-americano. Mas a memória e o coração nunca deixaram de ser nossos aparelhos mais sofisticados.

Obrigado por ler essa edição de Além da Letra – Rafael Senra! Assine gratuitamente para receber novos textos por email.